sábado, 21 de setembro de 2013

Capas na encruzilhada

Tudo começou neste rascunho, ideia que foi raspada da tabula rasa. E gerou 15 capas.
O mundo da literatura reproduz tudo o que o mundo real tem de torto ou de linha reta. Há pouco mais de duas semanas começou a ser discutido o projeto gráfico da capa do meu livro. Quando falei a primeira vez que queria uma capa sóbria, simples, tipo um fundo neutro e uma fonte que lembrasse uma tipologia de grafite, jamais imaginei que qualquer alteração mínima, como usar uma cor, um detalhe, uma fotografia e esse leque de tipos usados por grafiteiros e artistas do art crimes nos muros cheios de desenhos, frases, expressões e assinaturas na verdade representassem encruzilhadas abertas para interpretações e significados a cada olhar.

Pensava muito no conceito de “tabula rasa”, expressão latina que significa “tábua raspada”, com o mesmo sentido de “folha de papel em branco”, que lembra a crise dos escritores diante de uma lauda onde não conseguem colocar uma palavra ou iniciar uma frase. Fiz uns ensaios bem amadores no photoshop para dizer ao editor que caminho eu vislumbrava para a capa, como queria vestir o romance, criar uma embalagem.

Na Roma antiga, as tábuas eram cobertas com fina camada de cera. Escrevia-se fazendo incisões sobre a cera com uma espécie de estilete, que eram apagadas de modo que se pudesse escrever de novo sobre a tabula rasa, quer dizer, sobre a tábua raspada ou apagada. Paro aqui para não entrar nas questões filosóficas se formos buscar o conceito criado por Aristóteles que usou o termo “tábula rasa” como metáfora da condição da consciência de ser desprovida de qualquer conhecimento inato.

Olhar as possibilidades de apagar e criar tudo de novo me lembrava também a capa como um palimpsesto, pergaminho ou papiro usado para escrita que era apagada com raspagem de pedra-pomes ou lavagem para que o papel fosse usado novamente.

Mas depois da tábula (ou a tela do computador) ser usada e o pergaminho servir de suporte à escrita ou ao desenho numa versão moderna, num tablet, com suportes tecnológicos, deixam arquivos, como se fosse camadas, que podem ser revistas sempre.

Hoje tudo isso é bem mais fácil com as ferramentas fornecidas por programas gráficos criados para computador. Mesmo assim não consigo deixar ver que a arte da capa tem muito do artesanal, da mesma forma como a criação de scrapbook, colagens, recortes, letrinhas, cores, gramaturas e estiletes, tesouras, colas. Isso me remete à escola primária e às precárias aulas de educação artística. É preciso manter esse espírito para mão ficar tentado a dar apenas soluções de software.

Encontrei um blog interessante para quem quiser pensar mais sobre o tema. O designer editorial Rubens Lima revela os sete segredos da criação de capas de livros no site “O Capista”. 

Nesse mundo de designers cada vez mais especializados em função dos produtos por eles desenvolvidos, na área gráfica gosto da palavra capista, do profissional que veste esta capa, e que parece profissional em extinção como se tornaram os sineiros, os remendões (antigos sapateiros) que recuperavam as solas de sapatos furadas de tanto uso, as costureirinhas de bairro... Muitas profissões desapareceram do mercado, como os acendedores de lampião. Outras migraram. Os capistas do futuro serão especializados em e-books e talvez percam o romântico título de quem encheu estantes e bibliotecas com embalagens de aventuras, romances, filosofia, ciências, artes e até páginas envenenadas.

Mas será que os livros como os conhecemos serão extintos completamente? Acho que não viverei até lá.

Enquanto este tempo não chega não renegarei minha paixão por lombadas dispostas irregularmente numa estante, das capas de livros que a gente deixa quietos no criado mudo, sobre a cama, espalhados pelos móveis da casa e do apartamento. Há uma mistura de emoção e estética pensar desse modo. E mais, há o ritual de levar o livro para aquele nosso cantinho de leitura, de dormir com o autor sem conotações eróticas. E a saudade de personagens. E há dedicatórias. E há histórias. E aquele cheirinho de livro novo?

Eu experimento o tablet sem traumas e até gosto do balé do movimento do indicador pressionando ou alternando telas, sem precisar usar saliva para virar uma página de papel e correr o risco de ser envenenado por algum cortesão, rs.

Pois bem, nunca vivi um momento de tamanha indecisão. Das 15 propostas de capas apresentadas, restaram duas com duas variações em torno delas, ou seja, quatro capas. Tenho que escolher uma até segunda-feira.

Copiei esta frase do blog do Rubens Lima que resume bem o que é uma capa de livro:

“A capa de um livro é uma das poucas embalagens que é parte do produto. Não é descartável e, em condições normais, permanece conectada ao produto até o seu derradeiro fim.”

Os livros seguirão comigo.