sábado, 18 de janeiro de 2014

Vivos, mortos e fantasmas no vagão



Os vagões da Berlinda começam a ser ocupados. Desde a saída do metrô do aeroporto de Schönefeld, que ficava na ex-Berlim Oriental. Tenho uma inexplicável sensação de estar entrando em meu próprio livro, no mesmo vagão em que entram e saem os personagens que eu criei, além dos vivos e dos fantasmas que habitam Berlim, como essa estranha figura da foto que fiz a caminho de Friedenau. Paisagem de inverno. O verde quase desapareceu no caminho. Olho casas antigas e quintais. Was ist der nächste U-Bahn Station? O inesperado... (by Ronald Junqueiro)




Cheguei a Berlim no dia 11 de janeiro, sexta-feira. Um dia quente de inverno, 10 graus que depois caiu para 6. Deu para enfrentar o frio com apenas uma camiseta e uma camisa polo. O corpo parecia uma usina térmica, com uma pequena reserva de calor – mas suficiente – que eu trouxe do Brasil. Encontrei-me com o professor de teoria literária Gunter Pressler, que indicou meu nome e meu livro para o colóquio internacional amazônico, a ser realizado no Lateinamerika-Institut da Freie Universität Berlim, onde vou apresentar “Berlinda – asas para o fim do mundo”, meu romance de estreia, a trilha musical composta para o romance e um clipe do samba enredo “Derruba o muro, mistura tudo e que Deus nos acuda!”, música feita em parceria com o compositor Pedrinho Cavalléro.

O primeiro encontro com a cidade, depois de três anos, dá uma sensação de estar em casa. Deixei minha mala no apartamento, um prédio que fica na esquina da Ahrweilerstrasse com a Wiesbandener Strasse. E era sábado. Na cabeça, declamo a poesia do Vinícius de Moraes, o poetinha de sonetos inesquecíveis.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos (...)

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado




Porque era sábado, era também dia de encontros. À noite fui com o professor Gunter e a professora Neusa Pressler falar sobre o que foi a chegada e o que já iríamos preparar para a semana, num jantar tranquilo no Hell oder Dunkel, na Laubacher Str. 28. Um velho casarão, centenário e pulsante. Tudo muito familiar para mim. Claro ou escuro, como se fosse o dia da criação.

A Berlinda chegou a Berlim, onde as ideias e textos começaram a se entrelaçar em tramas e teias em setembro de 2010, onde fiz os primeiros ensaios do livro, começando pelo último capítulo, que antes uma forma nebulosa feita de luz e sombra, como num poema que Elis Regina recitava no show Trem Azul.

É incrível como aparecem sinais no caminho do livro. No dia seguinte, um domingo de sol, fui visitar o túmulo de Marlene Dietrich, no Friedhof de Friedenau, na Stubenrauschstrasse. Dietrich é citada no samba-enredo do romance e na narrativa sobre o desfile da fictícia escola de samba de Berlim. Ela repousa num túmulo simples. Na outra quadra fica o túmulo da mãe da eterna ‘Anjo azul’, Wilhemina Elisabeth Hosephine von Losch. Na mesma noite, assisti num clubinho do prédio onde estou morando o filme ‘Asas do desejo’, de Wim Wenders. Lembrei-me de Engel, personagem do romance.

No dia 13, fui ao Lateinamerika-Institut conhecer o local e conversar com professor Gunter Pressler sobre a apresentação do romance e da trilha musical. Depois seguimos para a Mensa, restaurante universitário da Universidade Livre de Berlim. Há muito movimento e uma vivacidade de jovens estudantes de todas as partes atrás de conhecimento e oportunidades. Há uma atmosfera saudável. Tudo acaba por ser uma provocação das memórias, dos meus tempos de estudante.

O tempo corre em Berlim e a cidade é um universo de coisas para ver e fazer. A segunda-feira prosseguiu com uma idade ao Ibero-Amerikanisches Institut, onde assisti a uma palestra sobre o caso ‘Chevron-Texaco’, um dos grandes casos de poluição ambiental ocorrido no Equador. O povo paga um preço alto pela contaminação do solo e o processo se arrasta até hoje na justiça para que os atingidos pela praga do petróleo sejam indenizados pela empresa multinacional.

A sala Simon Bolívar, onde assisti à exposição do embaixador equatoriano, é a mesma onde vou apresentar ‘Berlinda' e o CD, na próxima sexta-feira, dia 24. Este outro convite veio em decorrência da apresentação do meu projeto à direção do IAI, também pelo professor Pressler. A aceitação veio de pronto, pois o projeto da Berlinda se insere na categoria de um modelo transmídia, que envolve outros meios para apresentar a literatura.

Hoje o Diário da Berlinda tá com cara de diário, de fato. Esses foram os primeiros dias de chegada da berlinda com todos os seus personagens nos vagões, pois como ela é mutante, pode ser, às vezes, um trem. Pelo menos na minha imaginação.

Quebro também a rotina do sábado, depois de um longo tempo sem escrever aqui, onde quero contar a experiência subjetivamente incrível que foi conhecer o arquivo de Walter Benjamin, numa tarde de terça-feira. Tudo tão longe e tão perto do meu coração. A história do conhecimento é uma grande fonte de inspiração para todos os gêneros literários que se possa imaginar, desde os estudos filosóficos ao mais trash romance policial daqueles comprados em bancas de revista.

A história dos diários de Walter Benjamin é de mexer com cada poro da gente, entre o claro e o escuro da história contemporânea.