sábado, 2 de agosto de 2014

Próxima parada: Berlim

A caminho de algum lugar em Berlim. By Ronald Junqueiro


(Trecho do primeiro capítulo de "Berlinda - asas para o fim do mundo", págs 15 a 17)

Verão europeu, 2006

Dias claros mais longos. Leo estava na estação, sentado ao lado da mala, olhando o relógio da plataforma, à espera do embarque no trem que partiria no meio da tarde ensolaradamente viva. Próxima parada, Berlin. Ainda não havia movimento intenso na plataforma do embarque. Ele chegou muito cedo. Hábito antigo, preferia chegar uma hora ou pouco mais antes da partida. Na Alemanha, os trens saíam no horário se nada de excepcional acontecesse, e, quando se aproximava a hora do embarque, formava-se um formigueiro de gente afoita para entrar nos vagões já que o trem não ficava muito tempo parado. Leo apreciava esse vaivém na estação Esperava por Zarah, que conhecera numa festa em Colônia. Eles viajaram para Frankfurt am Main numa sexta-feira e combinaram encontrar-se na estação naquele domingo. Os dois iriam para Berlin1, onde Zarah o hospedaria por duas semanas.

Os olhos não desgrudavam do relógio e do placar que anunciava o próximo comboio. Martelou na cabeça a mesma ansiedade, uma quase acusação: “Cheguei muito cedo... bom, melhor assim, já pensou pegar o trem errado?”. Paranoia de viajante. Mas já acontecera de ele reembarcar, em Lisboa, uma brasileira que havia pegado trem errado em Paris. Ela colou em Leo quando ouviu que ele falava português no corredor do trem com uma garota portuguesa que morava em Marselha, uma dançarina lisboeta com alguns quilos acima do peso que iria visitar os pais. A nervosa senhora de meia-idade chamava-se Maria de Nazaré, era de Belém do Pará, devota da Virgem e morava no bairro de Nazaré. Não dava para esquecer o nome e a cara de pânico da passageira perdida. Em Lisboa, ajudou a mulher a comprar nova passagem para Paris. Encheu a cabecinha dela com recomendações, informações sobre duração da viagem, paradas do trem até a Gare du Nord, seu ponto final. Que fim levou Maria de Nazaré não fazia a menor ideia. Mas esse acontecimento, tão insignificante para ele, desatou a sensação que todos nós vivemos assim, em permanente trânsito, ou que a presença das coisas e dos fatos é transitória na vida de cada um de nós, viram lembranças, simplesmente. Dia de viagem deixava-o ansioso. Como hoje. Chegou à plataforma e foi direto checar o ponto de embarque, caçar o vagão. A cabeça do viajante funcionava como carrossel. Será que Zarah viria? Com certeza viria... Ah, que mania essa de pensar o pior em algumas situações! Sua taxa de pessimismo estava mais desregulada que o colesterol. Como chegaria a Berlin sem saber onde ficar, sem um plano emergencial, sem uma intenção? O pior é que nem fizera planos... Pô! Ninguém o aguardando em Berlin, a não ser a cidade.

Zarah chegou em cima da hora. Desculpou-se por não ter vindo um pouco antes. Ele nem prestou atenção ao que ela disse. Entraram no vagão, colocaram as malas no bagageiro e acomodaram-se nas poltronas ao lado da janela. Leo ficou na fileira do lado direito. Zarah pegou um livro, colocou-o na mesinha central e aquietou-se na poltrona da janela do lado esquerdo. Quando compraram as passagens em Colônia, não conseguiram reservar poltronas contíguas. O caso agora era esperar o trem partir e tentar trocar de assentos com algum passageiro de bom humor. O trem se reanimou, qual bicho que rastejava até ganhar velocidade na intenção de dar o bote.

Um vagão limpo, climatizado. Tudo clean demais e sem a atmosfera dos velhos romances policiais, dos filmes em preto e branco, sem os mistérios das viagens que povoavam a imaginação com crimes insolúveis ou mortes encomendadas, com assassinos disfarçados de passageiros comuns, insuspeitos. Os trens modernos não tinham esse clima de suspense, faltava a eles a luz mortiça do cenário, o som de fundo, das rodas arranhando os trilhos e uma trilha sonora a eriçar os pelos dos braços. Zarah acompanhava a saída do trem a distanciar-se da estação, olhar distraído através da janela.

A viagem deveria durar cerca de quatro horas e meia. Estariam à noite na estação central de Berlin. Leo via a paisagem através da janelacomo se tudo viesse contra ele, na sua direção, provocando lembranças. A janela virou tela. Janela com vidraça sem manchas, quase um plasma de tela plana. Do ângulo em que se encontrava, podia regular a nitidez das imagens que começavam a se formar naquele movimento do trem, hipnótico, que o deixava meio dormente.

Do nada, uma foto em preto e branco de uma velha revista apareceu congelada na superfície envidraçada. Miragem. Pressentia que não estava acordado e criava ilusões, viajava pela imaginação. De repente, a foto se animou, um soldado andou de um lado para o outro próximo a um cercado de arame. Um grupo de pessoas conversava ao fundo. Um dia comum na Berlin dividida. Inesperadamente, o soldado voltou o olhar para o outro lado, correu e pulou a cerca de arame farpado, deixando para trás o que seria, mais tarde, o muro que faria da cidade uma ilha. Sobre a imagem foi se formando uma legenda que não traduzia o significado do salto nem a emoção do soldado. Mas legendas não foram feitas para traduzir emoções; eram escritas, muitas vezes, só para enfatizar o óbvio: “Ein Volkspolizist springt in die Freiheit”. Leo lia a legenda e ouvia a própria voz ecoando na cabeça, como se fosse o narrador da cena. Um estado letárgico que o deixava ausente do que se passava no interior do vagão. Relaxou, largou-se na poltrona, cabeça meio inclinada para o lado direito. E, nesse estado de sonolência, Leo roteirizou um filme. Câmeras! Ação!