sábado, 13 de julho de 2013

Elemento: verdade

Nossa ilha ou nossa galáxia. Não somos extraterrestre. By Ronald Junqueiro

Armários, gavetas, estantes, caixas de guardados, um velho criado mudo e uma nova mesinha de cabeceira que escondem aqui e ali cartas de antigamente, cartões postais adormecidos em um tempo passado, álbuns de fotografias ou pilhas de fotografias espremidas em envelopes. Objetos arrumados em superfícies polidas ou empoeiradas, assim como nossa memória que às vezes nos parece feita de camadas, de aterros, de teias e terrores. Não sei se essa é a melhor imagem para falar de lembranças, de fragmentos que flutuam num tempo onde o calendário não segue uma ordem lógica como a deste exato momento.

Quando comecei a escrever meu romance aprendi, sem método e sem área demarcada, a fazer o que chamei de “escavações mentais” e então me dei conta que eu podia estar numa ilha ou numa galáxia. E por onde começar? Então me vi diante da cumplicidade e do confronto que também são linhas que costuram a solidão, quando esta se apresenta como camisa de força ou fantasia.

A Bolsa de Criação Literária com a qual fui contemplado em 2010, pela Funarte, desencadeou em mim uma tempestade de dúvidas, terremoto sem epicentro tascou-me na cara essa máscara multifacetada de espanto, incredulidade, pânico e interrogações – E agora José? Claro que uso espátulas e pincéis especiais para dar a esse quadro traços dramáticos e cores vibrantes, mas quando nos impomos dilemas, inevitável é uma pitada de exagero.

Comecei a antecipar dificuldades e crises não vivenciadas como a tal da síndrome da página em branco, decidir se a narrativa iria fluir melhor na primeira pessoa e busquei regras, dicas, declarações aqui e ali de escritores sobre o processo criativo, tomei uma alta dose de desânimo com o destino final do livro, inventei obstáculos com a mesma dose habitual de exagero para casos afins de que essa tarefa seria pior que os 12 trabalhos de Hércules. Tudo isso em tom autoconfessional, pois sou pessoa dada a solilóquios, sou dessas pessoas que faz a velha interlocução “cá com meus botões” desde que inventaram os botões e que estes são melhores interlocutores do que zíper ou velcro. E nossos botões, ocupantes de casas que não habitamos, às vezes apresentam boas soluções. Você não precisa buscar resposta longe, ao largo, do lado de fora. Muitas respostas estão em você e não são soluções piramidais para, muitas vezes, falsas equações complexas.

Na semana seguinte, pós-ressaca da notícia de que havia sido selecionado entre os 60 candidatos à bolsa de criação literária, abri uma pasta no Word e comecei a escrever o último capítulo, o Berlinda 20. Pronto, o livro “Berlinda – asas para o fim do mundo” teria 20 capítulos. Escrevi cinco laudas e parei. Não queria estragar a surpresa para mim mesmo. Foi então que comecei a escrever o primeiro capítulo. Decidi alimentar minha inquietude, correr contra o tempo para chegar ao último capítulo e isso me custou muitas noites de sono. Escrever me parece também uma brincadeira de gato e rato. Eu e o texto.

Não há tanto mistério no mistério que se pode atribuir ao ato de escrever, e sim a descoberta de sensibilidades. Isso, no plural. Porque ao longo desse processo, tudo começa a ser povoado pelas lembranças, pelos personagens, pela exumação que fazemos nos arquivos mortos, nas escavações que se multiplicam em terrenos emocionais, de elos perdidos, de sons, de cheiros, de visões e de vivências. Nesse sentido, experimentei a mais longa viagem em um “Tornado” de um parque de diversões. Como aconteceu uma vez no inverno passado em Hamburgo, em 1992.

Escrever não é coisa para extraterrestres. Vasculhe seus guardados. Tudo está em sua volta e, com certeza, a maior parte de tudo está dentro de você. Mesmo as coisas que lhe parecem banais ou que para você poderiam parecer banais aos olhos alheios. Mas o que são olhos alheios se o mais importante é o seu olhar? Nem o implante de retina mudaria o que você viveu. E o que você viverá, quem sabe? O que virá depois espere, se for o caso.

Se você decidir escrever, faça-o sem se importar com quem vai ler. Em primeiro lugar, você escreve pra você. Em segundo lugar, use a verdade como o elemento mais íntimo da solidão.

Escreva com verdade. Como James Joyce em “Dublinenses”, um dos livros mais encantadores que já li, em minha opinião, pela simplicidade do escritor de contar o que lhe é próximo. O livro reúne 14 contos, escritos entre 1904 e 1905.