sábado, 20 de julho de 2013

Querido personagem

Construir personagens é febre da imaginação. By Ronald Junqueiro

Falar sobre a construção de personagens é tema que não se esgota e eu me sinto um amador para dizer que isso se faz assim ou assado. Ideias, conselhos, experiências, dicas, literatura pertinente, caramba! É um bombardeio interminável para quem busca pelas pedras preciosas no mapa do tesouro da criação dos seus tipos inesquecíveis. Se os sites de busca da internet forem acessados, então, prepare-se: é como entrar num mato sem cachorro. Tempo, paciência, muita disposição e fôlego com direito a balões de oxigênio extra... É coisa para quem tem espírito dos grandes navegadores com o ideal dos argonautas. Navegar é preciso em mares nunca dantes navegados.

Todos nós temos nossos personagens memoráveis e tantos e muitos que acabaram saindo das páginas dos romances para ganhar vida em outras artes, como no cinema. E muitos personagens que habitam páginas e páginas literárias foram inspirados em pessoas reais. Fico imaginando como Machado de Assis soprou alma a Capitu e a alma Bentinho; como Flaubert foi dando cores madame Bovary, como Frankenstein entrou para o mundo real como metáfora do irreal, imortalizado pela escritora inglesa Mary Shelley. A escritora, que tinha 19 anos quando escreveu sua ficção, não estava muito longe do que a ciência apresentaria ao mundo depois, a clonagem em tempo real.

Num desses passeios pela internet encontrei uma matéria publicada no jornal argentino Clarin, em novembro de 2002, na qual dez escritores falam sobre a criação de personagens. Cada um deles abre uma porta para mostrar o seu mundo particular.  Gosto do que diz a jornalista e escritora espanhola Rosa Montero, de quem li apenas um livro, “A louca da casa” – isso foi em 2004 e de repente a gente se dá conta nessas pequenas constatações que o tempo corre numa velocidade impalpável. Não sei quando vou voltar para o universo literário de Rosa Montero, mas anseio por isso.

A imaginação, chamada de a louca da casa por Santa Teresa de Jesus, é o fio invisível que conduz tudo o que vivemos no universo do livro, quando nos deparamos com a página em branco a ser preenchida com nossos sonhos e delírios. Assim, Rosa nos conduz pelo romance, que trata da autora e sua relação com a escrita, com todas as portas abertas para a imaginação.

“É que nada é linear! A vida, a nossa vida, a sua, a minha, a de todos, é um absoluto caos, uma confusão que a nossa imaginação tenta organizar inventando, inventando... A sua vida nunca é clara, definitiva, segura, firme. A vida é paródica, contraditória”, diz Rosa Montero.

Minha primeira incursão por esse universo me levou por um dos caminhos que Rosa Montero sinaliza. A construção de um universo ficcional dentro do universo real para onde inventei habitantes que foram ganhando alma em cada sopro.

Lembro-me do encontro dos personagens Leo e Miguel, quando eu escrevia o livro, cada um deles contando de si histórias mirabolantes de personagens que fomos construindo (eles e eu) através do diálogo na viagem que os levava a Berlim. E saquei que aquele era um momento Frankenstein em perfeita união com a louca da casa. E quando eles começaram a ganhar vida, houve momento em que virei refém deles, mas só num primeiro momento. Depois vi que a história era minha, que a imaginação era minha e que eles foram construídos para contar minha história ao sabor da minha imaginação. Mas, na verdade, eles ganharam independência e viraram bons jogadores.

O que são personagens e como eles nascem?

São seres confinados entre páginas e capítulos e que ganham liberdade a cada leitura quando caem nas mãos de alguém. Assim, numa sentença simples.

Eles podem aparecer das formas mais inesperadas. Lembro-me de um exercício que eu fazia na época de escola, ao escrever redações. Juntava o humor de um tio, com a magreza de um vizinho, a voz grossa do irmão mais velho, a cara neutra do meu pai ao falar sobre esoterismo e assim por diante. Então afinava a minha versão Frankenstein à espera de um sopro de vida, uma identidade, um nome e um passado.

Estamos cercados por esse mundo visível pronto para ser sequestrado pela imaginação. E depois que tudo começa não para mais. Ficamos viciados em literatura.

Volto a James Joyce. Gosto como ele nos faz materializar seus personagens com uma maestria própria. Como neste trecho do conto “Contrapartida”, do livro de contos "Dublinenses".

“A campainha soou furiosamente e quando a senhorita Parker chegou ao receptor, uma voz irada, com estridente sotaque irlandês, gritou:

- Mande Farrington aqui!

A senhorita Parker retornou à sua máquina e, de passagem, disse para o homem que trabalhava numa escrivaninha:

- O senhor Alleyne quer você lá em cima.

“Que vá para o diabo”, resmungou o homem, afastando a cadeira para levantar-se. Em pé, via-se que era alto e corpulento. Tinha o rosto flácido e avermelhado; as pestanas e os bigodes loiros. Seus olhos eram protuberantes e sujos. Levantou a tampa do balcão e passando pelos clientes, saiu do escritório, pisando duro.

Com passos lerdos, subiu a escada até o segundo patamar, onde uma porta exibia uma placa de bronze com a inscrição: Sr. Alleyne. Parou ali, ofegante de cansaço e irritação. A voz estridente gritou:

- Entre!

O homem entrou na sala. No mesmo instante, o senhor Alleyne, um homenzinho de rosto bem escanhoado e óculos de aro dourado, alçou a cabeça por trás de uma pilha de documentos. Ela era tão vermelha e calva, que parecia um imenso ovo posto sobre os papéis. O senhor Alleyne não perdeu um segundo:

- Farrington? O que significa isto? Por que sempre tenho de lhe chamar atenção? Pode explicar por que não tirou uma cópia do contrato entre Bodley e Kirwan? Eu lhe disse que era para estar pronto às quatro horas.