sábado, 22 de março de 2014

Ah, que saudade que eu tenho!

Um doce fazer nada. O amanhã virá. Pode ser como hoje, de paz.


Não tenho disciplina nem método como leitor. Elejo um ou dois livros como os mais importantes da temporada quando se trata de uma escolha subjetiva para minha leitura dentro de um prazo flexível, de um ou dois meses... Ou mais. Mas não consigo ficar indiferente àquela seta de retorno e então negocio comigo que farei um desvio rápido, tipo “eu vou ali, mas volto já!” e logo retomo a rodovia onde eu já estava com um ou dois caronas principais que não contavam com mais gente na boleia, novos ou velhos conhecidos que me cobram igual atenção, por mais que lhes conheça a bagagem, o que está no fundo, nos cantinhos, onde fica esta ou aquela peça que me atrai mais. É isso, livros são assim, fazem parte da trupe. Ah, coração leviano!

Levo do meu lado direito, há duas semanas, a escritora indiana Kiran Desai que me preenche sulcos da memória e o coração com seu belíssimo "Rebuliço no pomar das goiabeiras”, mas eu estava numa inquietude braba, pensando na inglesa Virgínia Woolf e na Sra. Ramsey, um dos personagens de “Passeio ao Farol”. Agora ando por dois cenários diferentes, por dois tempos diferentes e isso me traz uma felicidade enorme nessas viagens mágicas que nos proporcionam a literatura. À sombra densa de duas escritoras que, cada uma em sua época, mostra o imprescindível olhar feminino no universo das letras.

Tenho que confessar que meu coração bate muito mais por Virgínia, de quem me faço acompanhar a mais tempo, desde que li “Dia e noite”, o segundo romance da autora, uma história de amor que me tirou o ranço de que mulheres eram boas apenas para contar histórias de amor e que outros grandes temas eram próprios dos escritores, escritos com tinta masculina. Isso fez parte da minha formação como leitor nos primeiros passos dados ao encontro da literatura. Aprendi que sem as mulheres não haveria paraíso na literatura, não por termos que juntar Adão e Eva ou provocar uma guerra de sexos, mas pelo fato de que sem Eva o paraíso estaria esmaecido, não experimentaria a importância da transgressão.

Não lembro como Virgínia Woolf entrou na minha vida. Sei que não foi por indicação. Vagamente, recordo que a encontrei num dos passeios pelas livrarias, na dureza, sem grana para esbanjar com o que eu mais gostava de fazer que era ler, coisa que me apontou o caminho da biblioteca pública. Quando eu não ia à biblioteca, fazia uma paradinha numa livraria para ler orelhas dos romances, a contracapa e até um capítulo inteiro com uma cara solene de quem apenas avaliava se o livro escolhido era o que eu iria comprar.

Com que dinheiro?

Não me sentia infeliz e até me divertia, mas que merda! Foram anos de dureza e de leituras adiadas. Isso me fez ser, também, um acumulador de livros a partir de quando ganhei meu primeiro salário e me senti tão rico por poder entrar numa livraria cheio de moral, com minha listinha de desejos.

Livros são vias e desvios. Hoje, passeio em cada página, em cada capítulo, em cada frase, nas cenas e na composição de personagens com o brilho do momento da leitura, da entrega, e ao mesmo tempo embalado em lembranças. Daí constato que me transformei, também, num ser movido por saudade.

Fiz uma pausa no livro de Desai e comecei a reler “A janela”, primeiro ato de “Passeio ao Farol”. Digo primeiro ato, pois o capítulo é como uma cena de teatro. O livro me provoca a real sensação de distanciamento entre palco e plateia, um modo clássico de estar ali, sem intervenções e interações em montagens experimentais com atores e espectadores. Sinto uma intimidade enorme com a sala onde a mãe está tricotando uma meia para dar ao filho do faroleiro quando a família for passear, no dia seguinte, ao Farol. A Sra. Ramsay espera que faça um dia bom para levar os filhos nessa aventura. O marido prevê tempo ruim. É uma família grande. A Sra. Ramsay tem oito filhos.

Lembrei-me de casa, da família reunida e suas discussões domésticas durante o jantar. Era, também, uma família grande em torno da mesa servida por alegria, dificuldades de toda ordem, relatos do dia, um tema instigante para servir de conversa misturando-se ao cheiro bom de sopa e de pão, inventários dos irmãos sobre o que cada um fez de certo ou errado, sentenças infalíveis de pai e mãe, pois os adultos tinham sempre razão, “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”... Em casa tinha sempre muita gente...  É um tempo tão longe! Um tempo que é como o senhor tempo do romance “Passeio ao Farol” quando olho para trás e vejo tanta gente que se foi, que já não está mais aqui. Percebo o quanto me impulsiona a saudade. Uma saudade que é feita de vivos e mortos e de personagens guardados nas páginas de livros que já li e que vieram habitar esse espaço povoado, também, de solidão, de um estar só com a nossa verdade, com a vivência com que a gente tece nos intervalos confessionais com laços e nós que nos ligam a todos os que amamos, ainda que as salas e cômodos estejam vazios de alguma coisa ou só existam na imaginação e na lembrança.

Não dá para voltar atrás nesse processo contraditório do esvaziamento físico e da acumulação de afetos usados na nossa construção sentimental. Tudo está dentro de nós e na nossa pele, nos objetos ao alcance das mãos como um livro quieto nas estantes, em fotografias arrumadas em álbuns ou arquivos digitais.

A vida tem dessas coisas, às vezes é como um passeio ao farol ao sabor do tempo só nosso: o tempo que olhamos através da janela que abrimos para dentro de nós.

Somos seres condenados à saudade.