sábado, 5 de abril de 2014

Bye bye José Wilker

O coração lhe pregou uma peça. E Zé seguiu em outra caravana. Seja feliz.


A primeira notícia que ouvi na manhã deste sábado foi a que tomou conta das emissoras de televisão e das redes sociais falando da morte do ator José Wilker, um brasileiro desses de dar orgulho aos artistas de um país onde a cultura vive sempre mendigando incentivos e dinheiro para, pelo menos ter a lona a cobrir-lhe o circo. É incrível como as notícias podem causar impacto profundo e sentimentos inesperados em fãs anônimos tipo eu, que me vejo meio recolhido para manifestar o meu gostar. E nem entro em mais detalhes. Enquanto eu assistia um telejornal pela manhã, com depoimentos de colegas e amigos do artista, pensava no quanto a unanimidade pode ser uma declaração de inteligência, de reconhecimento coletivo da genialidade, da excelência do artista artesão da sua arte. E tudo contradizendo a tese de Nelson Rodrigues que a gente ouve repetir à exaustão que a unanimidade é burra. E é incrível a tristeza verdadeira desse bando anônimo, com a notícia decretando a orfandade de uma enorme plateia nacional.

Inteligente, culto, forte intelectualmente, dono de um invejável humor que é bombardeado diariamente por bombardeios insanos da violência, das falsetas, das mentiras. Assim ele era e continuará sendo lembrado pelos amigos, pelos colegas e pelos mais próximos. Um brasileiro do bem, desses que nos farão falta a partir de agora. Vi num flash da memória da televisão, José Wilker mostrar-se inteiro, veio fazer o que queria fazer e aprendeu a ser feliz. E generoso. Como no depoimento da atriz Bárbara Paz, de uma geração de artistas mais novos, contar sobre o dia em que o Wilker presenteou a ela livros e recomendou-lhe “se tranque no quarto e leia”, como um bom mestre a apontar caminhos dos desvendamentos e de auto-aperfeiçoamento no tempo que cabe a cada um.

Ele será o inesquecível mágico da Caravana Holiday no filme “Bye bye Brasil”, o eterno Vadinho de “Dona Flor e seus dois maridos”, o Roque Santeiro e outros tantos personagens a quem ele deu vida... Portanto, imortal assim como são os personagens, que sobrevivem aos seus autores e intérpretes. José Wilker não deixaria por menos, agora é imortal personagem do Teatro, Cinema e Televisão Brasileiros, por onde transitou também como diretor.

Quero só registrar minha admiração cá de longe, na plateia. E mesmo assim José Wilker me parece tão perto. E me deixa triste sua ida, dessas tristezas que hão de passar, pois acho que ele foi um cara feliz e se foi feliz. Talvez nem tenha tido tempo de escolher uns óculos ou um par novo de tênis para pegar a estrada. Numa entrevista que vi hoje, sobre a vida de Wilker, ele dizia que quando deixou Juazeiro do Norte e se mudou para o Rio de Janeiro, o plano era esse, não tinha plano, sabia apenas que não voltaria.

Que autor não gostaria de ter um artista como José Wilker para encarnar seus personagens?