sábado, 19 de abril de 2014

Vida boa, vida breve no jardim das cerejeiras

Vamos passear através das cerejeiras e aproveitar a efêmera primavera feita de adeus.

E um dia chega o dia inesperado. Ou melhor, chega o dia esperado que se enfeita de inesperado, pois morrer é um pouco assim se a vida seguiu seu curso natural, sem erros médicos, sem a natureza fúnebre da doença terminal, sem suicídios planejados, sem bala perdida. Chega o dia do adeus definitivo ou do último adeus que nem sempre se anuncia em contagem regressiva para a gente zarpar, desatracar do cais e seguir de vez. Comecei a pensar ainda garoto nesse ir sem vir, por ter nascido num família onde havia muita gente mais velha ao meu olhar temporão. Foram-se os avós, tios, primos que nem cheguei a conhecer e muita história sobre morte, esse momento cheio de mistérios para minha cabeça de criança, que via a tristeza em volta e nem sabia como ficar triste, mas que tinha a tristeza como obrigação porque era bonito estar triste, era ser igual aos adultos tristes e seus lamentos, porque sentir-se solidário e expor nem que fosse uma única lágrima era mais lindo ainda e isso já garantia um cantinho do céu quando eu fosse dormir e não conseguisse acordar.  Mas a tristeza passava muito rápida e eu sentia uma ponta de remorso – ou será que eu fingia? – porque os adultos eram mais bonitos por sentirem tristeza mais tempo do que eu. Sempre achei que a tristeza emoldurava os rostos com uma beleza única, grave e ao mesmo tempo beatífica, dava ao olhar uma profundidade inexplicável.

A morte povoou minha imaginação, não mais como luto de perda recente, mas de gente que se foi. O luto virou metáfora, figura de linguagem, assim como a tristeza é senhora, uma inesquecível Gioconda com olhar de mater dolorosa. Cada vez mais se adensa esse território íntimo que é limítrofe ao território dos vivos. E há uma faixa em que eles chegam a se confundir, por onde vagam autores e personagens, mortos-vivos, zumbis, gente que simplesmente sumiu e até anônimos convertidos em histórias que nos assombram. Assombram de verdade, como quando eu era garoto e ouvi um dos meus irmãos, o Aníbal, relatar a história de uma mulher que morava a algumas quadras da casa dos meus pais que para vingar-se do abandono e da desilusão amorosa matou os três filhos e se suicidou. A história em si não me abalou. Mas uma imagem ficou presente até hoje.  O bebê de dois anos que jazia no berço, com a mamadeira junto da boca e o babador sujo por gotas de leite envenenado. A defunta era uma mulher bonita, diziam os vizinhos, mas sem sorte no casamento.

No início da semana o Aníbal morreu. A cirurgia para colocar dois stents não garantiu a sobrevivência do coração doente. Fui ao velório e olhando meu irmão defunto lembrei-me da história da mãe que matou os filhos e se suicidou. Achei que depois que ele fosse sepultado eu esqueceria essa história. Não esqueci.

As lembranças que ficaram do Aníbal foram as que eu escolhi. Aprendi a editar minha memória. Um cara alegre, musical, fã de Elvis Presley e de Roberto Carlos, de quem sabia as músicas de cor e que é lembrado pela família por ter ensinado a minha irmã mais velha, a Silvia, a dançar rock. Tomara que os dois estejam ensaiando novos passos de dança. A Silvia foi antes dele.

A vida segue como elemento neutro, assim a entendo. Ela pode ser tudo ou ser alguma outra coisa, menos o nada, mas depende de tanta coisa para poder se expressar e se fazer valer a pena. Como essas tristezas que mais parecem saltimbancos a atrair olhares, a querer plateia, que é tão vaidosa quanto à alegria e às vezes até mais sedutora.

Esta semana foi de tristeza e nela eu meu recolho. Penso em quem partiu, pois era a viagem inadiável. Aceito a tristeza como hóspede e lhe faço sala sem precisar tagarelar como quando a casa se abre para a alegria.

Tudo passa. Tudo é viagem. E mais uma vez me valho do efêmero para perceber a velocidade do tempo, da luz, do pensamento e extrair daí o que me serve na bagagem.
A mala ganhou peso que, confio, não vá exceder. Arrumo em um canto os livros de Gabriel Garcia Marques. Sem permissão atribuo laços fraternos em nome da literatura, sonho de fã. Ah, Gabo! Não preciso alardear isso, né?  Vou curtir a tristeza dessa hora, desse adeus, mas já vislumbro atrás da porta da sala a alegria fazendo barulho, chamando atenção e dizendo que logo vem sentar num cantinho qualquer para me fazer companhia. Ela já anunciou que vai empilhar os livros do seu contador de história, o imortal Gabo de Aracataca.

Penso em Aníbal e Gabriel. Tudo é efêmero. A vida dá-me a impressão de ser breve como a primavera das cerejeiras no sul do Japão.