domingo, 14 de dezembro de 2014

Sob as luzes de dezembro

A velha árvore de Natal voltou à sala depois de ser esquecida por muitos anos


Dezembro é um mês que nos faz, inevitavelmente, olhar para trás, não importa a distância já percorrida até aqui. Às vezes só nos damos conta disso bem tarde, mas todos nós iremos um dia nos defrontar com esse instante. Penso que comigo tudo foi muito precoce. Andei lado a lado com a tristeza e a alegria muito cedo e elas não precisaram se apresentar com a pompa dos grandes bailes ou a dor imensurável das grandes tragédias. Já faziam parte da minha natureza e posso até dizer que são quase como minhas células-tronco tal a capacidade de autorrenovação. São autorreplicantes e podem se transformar se for o caso e, na minha visão, têm fôlego de sobreviventes. E mais, são capazes de virar outra célula como uma metamorfose ambulante.

 Dezembro não é triste, eu é que brigo com uma melancolia natural que me acompanha desde cedo, mas que cede seu lugar quando lanço mão de coisas que podem ser pequenos atos como dar meu tempo a alguém, escutar uma música, ler um livro, escrever, desenhar, assistir um filme, pensar, viver minhas saudades e o direito de ser triste quando a tristeza é necessária para me despertar para a vida. Não preciso de megaeventos para achar que sou um ser privilegiado. Acredito que ao longo do tempo aprendemos a construir pequenos artifícios para transitar pela claridade, pela sombra, pela luz difusa das transições que nos acompanha no final dos ciclos. Aprendi uma dureza que se aprende na luta do rochedo contra o mar, com muita disciplina. Mas não temo mostrar minha fragilidade como coisa de fracos, pois ela é um desafio importante a duas coisas que nos tornam humanos melhores: sentimento e inteligência. O que nos fragiliza pode fortalecer nossa percepção.

Dezembro é assim, dividido entre banquetes e mesas vazias. Não é o mês em si que pode me deixar down, mas lembro de quando eu percebi que ele simbolizava solidão. Eu estava em Berlim e recebi uma carta de um amigo muito querido que morava em Stuttgart me convidando para passar as festas com a família dele, que não era bom ficar sozinho no Natal. Há muitos anos eu já nem sabia o que era passar as festas de final de ano em família, em especial depois que meus pais morreram. Algumas vezes eu estava fora de Belém, batendo perna pelo mundo, algumas vezes num plantão de redação e outras vezes, desde que saí de casa, trancado no meu apartamento, quieto e sem espírito natalino. Acho que depois que a gente perde o tal espírito natalino ele jamais será resgatado. Não falo isso em tom de lamento e, nessa perspectiva, dezembro ficou menos dramático para mim.

Dezembro, melhor deixá-lo como é senão a emenda sai pior que o soneto. Assim penso.

Dezembro e seu tecido esgarçado, roto, com alguns buracos, fiapos, com manchas de vinho maculando o branco linho da toalha bordada, trilhas de migalhas de rabanada. Dezembro da velha árvore natalina, a lembrança de um presépio que se perdeu no tempo, ecos de vozes e risos. Tudo isso se passava na minha cabeça na viagem de trem entre Berlim e Stuttgart. Cheguei à gare e meu amigo me esperava com um sorriso acolhedor. E veio a noite da ceia. Vários amigos da família passaram para visitas e troca de votos e presentes. Em mim havia alegria e uma estranheza de estranho no ninho. Lembro que ganhei uma camisa quentinha, cor de telha. Mas não havia a grande aglomeração como nas casas brasileiras, como na minha casa. Mas na verdade nada de novo, só o frio rigoroso do inverno.

 Dezembro logo se vai. Tem gosto de tanta coisa. O pior é a sensação de ausência. Hoje senti saudade do Willi Hoss, esse meu amigo alemão que já não está mais por aqui. Lembrei das nossas caminhadas trocando ideias, jogando conversa fora, saboreando a vida com a sabedoria na companhia de um homem de bem, simples.

 Dezembro me faz pensar na falta que faz essa simplicidade do ser, dos encontros descontraídos, do se dar  incondicionalmente, do não artificializar os sentimentos ou a emoção, do não trapacear, do não abusar da arrogância de se achar o centro de tudo.

 Dezembro trouxe de volta a árvore de Natal que eu não gostava mais de armar. Criou um elo com algumas lembranças que eu queria resgatar, lembranças felizes para compensar o peso de algumas perdas importantes, este ano, que me balançaram, que me tiraram do eixo. Mas há em tudo isso, também, um ritual de libertação. Dezembro passará. Eu passarei. Todos nós somos passageiros levando na bagagem o que fomos recolhendo pela vida, Diamantes ou bijuterias. O que importa? Cada um sabe o que guarda seu relicário.