sábado, 17 de agosto de 2013

Meus títulos inesquecíveis

A berlinda foi concebida por artesão que vivia em Berlim. By Ronald Junqueiro

Berlinda é uma palavra com significado especial na vida dos paraenses, muito especial. Para mim, paraense confesso e por nascimento, não seria diferente, uma vez que a palavra está enraizada desde as primeiras lembranças infantis, dos primeiros passos de peregrino e devoto da Virgem de Nazaré, a padroeira, levado no colo dos pais na procissão do segundo domingo de outubro. A berlinda é um dos elementos que compõem este imenso painel da fé cristã.

Quando pensei o romance baixou também a agonia de encontrar o título que sintetizasse razão e emoção, a química. Mas o título fluiu e colou no livro, como nossas digitais são impressas nas folhas arquivadas na Secretaria de Segurança Pública e o polegar, na carteira de identidade.

Tenho minha tropa estelar de autores preferidos, que se alternam entre a cabeceira e as estantes do apartamento, mas os títulos (além das capas) sempre me seduziram sem que precisem ser o objeto obscuro do prazer, tanto que muitos autores vieram parar no meu cantinho por causa do título. Transcendiam a embalagem.

Certa vez, de férias no Rio de Janeiro, fui à Livraria Leonardo da Vinci, naquela fase juvenil de cair na farra literária e gozando merecidas férias da redação. Estava caçando uma edição rara de um livro sobre a Amazônia para um colega jornalista. Não lembro mais o título da obra rara, mas guardei para sempre aquela manhã memorável, perdido entre as estantes da livraria com cheiro da biblioteca pública que me encantava na época de estudante de ensino médio. Eu fazia parte da turma dos ratos de biblioteca, turma dos sem grana e sem mesada. Estudante que vivia na pindaíba, mas não desistia da paixão pelos livros.

Hoje penso que meu sentimento era mais ou menos como o do personagem do romance “Ninguém escreve ao coronel”, do Gabriel Garcia Marques, que morreria de fome, mas não sacrificaria seu galo de briga, enquanto esperava pelo dinheiro da aposentadoria que não chegava.

Aliás, este título é mais bonito em espanhol: ‘El coronel non tiene quien le escriba’ e dele gosto mais do que “Cem anos de solidão”, do mesmo Garcia Marques, para sempre Gabo, o que não quer dizer que eu não ame o segundo livro tanto quanto o outro.

Bom, vamos voltar à livraria carioca, localizada no subsolo do edifício Marques de Herval, na Avenida Rio Branco, um prédio que virou referência na arquitetura do Rio de Janeiro e um dos lugares mais queridos de Carlos Drummond de Andrade.

Perdido entre tabuleiros e estantes, numa das paradinhas para ler lombadas, um livro despencou sobre meu ombro. Juntei o livro e coloquei-o de volta sem dar-lhe muita atenção. Algum tempo depois, o tal livro caiu novamente. Peguei o exemplar e mais uma vez coloquei-o na estante, olhei para ver se não havia alguém por perto e nada. O livro caiu mais uma vez e aí disparou o sinal vermelho da minha imaginação. Devia ser uma visagem procurando o que ler. Pelo sim, pelo não decidi sair dali e quando me virei de costa para a estante o livro caiu atrás de mim. Mais uma vez olhei para os lados e desta vez peguei o tal livro e meus olhos se encheram de curiosidade e alegria: a capa mostrava um desenho de Stan Laurel  (1890-1965) e Oliver Hardy (1892-1957) - O Gordo e o Magro -, minha dupla de comediantes preferida, nas sessões da tarde da televisão. E o título quase grudava nos meus olhos, projetado numa tela de cinema com o título de um filme (do livro) que os dois iriam assistir: “Triste, solitário e final”, do jornalista argentino Oswaldo Soriano.

O livro é uma preciosidade para mim, pois mistura na trama além de Hardy, o magro, outro personagem muito conhecido do cinema e da literatura policial, Philllip Marlowe, detetive criado na ficção por Raymond Chandler. E a busca é para saber que fim levou Stan Laurel, o Magro, personagem de fim melancólico, bem como o ator que o interpretava. O livro me cativou por vários motivos e me fez descobrir o porquê de eu gostar mais Laurel e Hardy do que de Charles Chaplin.

Quando Stan Laurel e Charles Chaplin chegaram à Nova Iorque, Laurel arqueou os ombros e viu o quanto seria duro vencer na carreira e na vida. Chaplin encheu o pulmão de ar e disse que não ter duvida de que aquela cidade seria sua.

Meu coração bateu por Stan Laurel. Afeto vem assim, sem imposições.

Clique aqui para ver um episódio de O Gordo e o Magro.

Chegamos à escolha do título “Berlinda – asas para o fim do mundo", mas quero dizer de antemão que o romance escrito nada tem a ver com temas religiosos ou ligados à Virgem de Nazaré. São histórias de pessoas comuns, relatos cotidianos e ordinários. O título tem duas composições. A segunda “asas para o fim do mundo" é uma frase da letra “Estado de espírito” musicada pelo meu parceiro Vital Lima, e que publiquei num texto aqui no blog, no dia 27 de julho de 2013.

O título principal, “Berlinda” está ligado diretamente à Berlim. É nesta cidade alemã que surgiu o modelo e o nome da carruagem, que evoluiu e veio parar em Santa Maria de Belém do Grão Pará, para abrigar a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, que atrai milhões de olhares. Não é para menos, afinal a padroeira está na berlinda.

A carruagem foi criada por volta de 1670 para Frederico Guilherme I, de Brandemburgo, que queria um transporte especial para passear pela cidade. A carruagem foi concebida por um artesão genovês, de nome Filipe Chiese, que a batizou de Bérline, nome francês de Berlin. A letra “d” que passou a integrar o nome berlinda pode justificar-se por influência do adjetivo “linda”, devido à elegância do coche.

Acho que mais que um título foi, na verdade, como encontrar um nome de batismo para o romance, que não queria morrer pagão.

Assim, encontrei o elo literário que eu queria entre Belém e Berlim e, mais, transformei a berlinda numa nave da imaginação.

Mas quem está na berlinda afinal?

Minha memória é uma montanha de títulos e não dá para listar todos aqui. Mas faço uma lista de alguns que me vieram em flash, mas é só uma brincadeirinha. Qual destes livros eu colocaria na berlinda, agora, por achar que resumem as impressões digitais do autor? Só não vale a Bíblia e o Alcorão.  Escolhi dez, mas sempre vou citar mais alguns daqui por diante, até porque o melhor título nem sempre é o do melhor romance. Vamos nessa:

1. Três casas e um rio, Dalcídio Jurandir
2. Grande sertão: veredas, João Guimarães Rosa
3. Narciso em tarde cinza, Jorge Mautner
4. O deus das pequenas coisas, Arundahati Roy
5. Se um viajante numa noite de inverno, Ítalo Calvino
6. O ano da morte de Ricardo Reis, José Saramago
7. O livro dos insultos. H.L. Menken
8. A morte é uma transação solitária, Ray Bradbury
9. A lua na sarjeta, David Goodis
10. Atire no pianista, David Goodis

Quais são os seus títulos inesquecíveis?