sábado, 3 de agosto de 2013

Entre os muros da imaginação

Entre o Olimpo imaginário e percepções terrenas. By Ronald Junqueiro

Belém e Berlim. A sonoridade das duas palavras dançava na minha cabeça como o badalo de um sino anunciando uma boa nova - ou um funeral. São palavras meio anasaladas e de um som metálico como o que soa em Belém, por exemplo, na poesia de Manoel Bandeira: 
Bembelelém!
Viva Belém!
Nortista gostosa
Eu te quero bem.

Berlim e Belém. O que podiam ter em comum as duas cidades que seriam cenários do romance que eu queria escrever? O tempo que eu percorri entre cá e lá e seus intervalos, que revelavam encontros e desencontros de almas gêmeas e de almas avulsas? Eu sentia que as duas se alimentavam de paixões inusitadas. Esse ir e vir começou em 1983, o ano em que conheci o muro e atravessei a fronteira para ‘desvendar’ os enigmas de Berlim Oriental, numa dessas tardes assim. Mas o muro era apenas um artifício, pois lá e cá os corações batiam como qualquer coração. Esse era o ponto em comum.

Manoel Bandeira não foi o único a se apaixonar por Belém. Outro modernista, Mário de Andrade esteve por aqui e tudo o que viu e sentiu registrou no livro ‘O turista aprendiz’. E a lista de amantes da cidade é extensa.

Mario de Andrade 
mandou para Bandeira o poema ‘Modo do alegre porto', falando dos encantos de Belém.
Velas encarnadas de pescadores,
Velas coloridas de todas as cores,
Águas borrosas de rios-mares,
Mangueiras, mangueiras, palmares, palmares,
E a barbadianinha que ficou por lá!...

Que alegre porto,
Belém do Pará!

Que porto alegre, Belém do Pará!
Vamos no mercado, tem munguzá!
Vamos na baía, tem barco veleiro!
Vamos nas estradas que tem mangueiras!
Vamos ao terraço beber guaraná!

Oh alegre porto,
Belém do Pará!

O sol molengo no pouso ameno,
Calorão batendo que nem um remo,
Que gostosura de dormir de dia!
Que luz! Que alegria! Que malincolia!
E a barbadianinha que ficou por lá!

Que alegre porto,
Belém do Pará!

A barbadianinha que ficou por lá
Relando no branco dos moços de linho
Passeando no Souza, que lindo caminho!
À sombra de enorme frondosa mangueira,
Depois que choveu a chuva para-já!

Oh barbadianinha,
Belém do Pará!

Lá se goza mais que em New York ou Viena!
Só cada olhar roxo de cada morena
De tipo mexido, cocktail brasileiro,
Alimenta mais que um açaizeiro,
Nosso gosto doce de homem com mulher!
No Pará se para, nada mais se quer!
Prova tucupi! Prova tacacá!

Que alegre porto,
Belém do Pará!

Belém é assim, feita de amores e dores.

Lembro-me das primeiras aulas de História do Brasil, com alguns capítulos dedicados ao Pará, nos quais conheci a “Tragédia do Brigue Palhaço”, palco da agonia das 250 pessoas asfixiadas no porão do navio a mando do comandante naval inglês John Pascoe Grenfell, em 1823. E na sala de aula ouvi também sobre a Cabanagem. O levante do povo contra as forças dominantes, iniciado em 1835, e tido como a maior rebelião popular ocorrida no Brasil, deixou mais de 35 mil mortos no Pará - cerca de 30% da população do estado na época. Belém viveu dias trágicos e sangrentos. Esses episódios ficaram na minha memória de estudante.

Um passeio pela história pode ser um grande programa para se descobrir que a cidade parece ter sido construída para ser um cenário aberto a todas as produções reais ou imagináveis.

A tragédia de Berlim, mais próxima de nós na linha do tempo, está ligada dramaticamente à Segunda Guerra Mundial. Uma cidade marcada a ferro e fogo na memória da humanidade, presente até os nossos dias. A destruição de Berlim é um dos episódios mais explorados no cinema e na literatura. Lembro que um dos filmes que me causaram grande impacto foi “Alemanha, ano zero” (1948), que faz parte da trilogia criada pelo cineasta italiano Roberto Rosselini. Virou um dos meus filmes de cabeceira. Quero falar dele mais adiante.

Belém testemunhou também o ódio gerado pela guerra quando, em agosto de 1942, um navio mercante brasileiro bombardeado por um submarino alemão afundou perto daqui. A população, revoltada, destruiu e incendiou casas de imigrantes alemães, japoneses e italianos que foram levados para um ‘campo de concentração’ criado em Tomé-Açu.

A dor e o trágico unem as duas cidades.

Meu olhar subjetivo sobre Belém e Berlim não me deixava dúvida de que elas eram cidades de almas gêmeas. Este foi um dos pontos em cruz com que contei uma história, sem nem mesmo ter a habilidade das bordadeiras em cada ponto em nó. Arrisquei. E deixei solta a imaginação, com a intenção de transformar cada capítulo escrito em pixels, palavra que lembra o serrilhado dos pontos em cruz e, a meu ver, representa o que é o texto, quando a partir dele construímos cenários e personagens.

Pixel é uma palavra formada pela composição dos termos Picture e Element ou elemento da imagem.

Assim como se espalhou pelos quatro ventos nas cabeças pensantes e não pensantes que uma imagem vale mais que mil palavras, penso também que um texto é tão artes plásticas quanto um quadro de Paul Gauguin ou tão revelador quanto uma fotografia de Cartier Bresson. O texto guarda em si tanto o óbvio e a sutileza quanto os guardam os elementos da imagem. A qualidade é uma discussão para depois.

Escrever o romance fez-me pensar que a vida é um painel de múltiplas conexões e percepções. Curto a ideia dessas histórias contadas com movimentos de fios luminosos e coloridos, na forma artesanal do ponto em cruz. Isso evoca imagens serrilhadas de uma imagem aumentada exageradamente na tela do computador sugerindo o que numa resolução normal representa os milhões de pixels que formam a imagem pronta para impressão. Na literatura, a vida é impressa em texto.

Vivi o medo desses delírios do escrever e isso me permitiu alimentar meu espírito ficcional e entregar-me à intuição, onde técnica ou método eram elementos ausentes em determinados momentos. O medo me ajudou a equilibrar prazer e exaustão, algumas vezes.

E me vali, na minha cota de delírios, do auxílio luxuoso de coisas que povoavam minha cabeça, como algumas leituras de anos atrás sobre mitologia, um tema que me encanta até hoje.

Quem se lembra das Moiras da mitologia grega? Aquelas três irmãs medonhas que decidiam sobre a vida dos seres humanos e dos deuses? Acho que temos alguma coisa delas dentro de nós quando assumimos o papel de autor. Determinamos a vida e a morte dos personagens e nem Zeus contesta a decisão. E assim abriguei na minha imaginação as deusas Cloto, Láquesis e Átropos, responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio da vida. Elas estão representadas na ‘Roda da Fortuna’, carta do Tarô.

Na mitologia romana elas são conhecidas como Parcas. São as deusas Nona, Décima e Morta. Nona tece o fio da vida por nove meses, Décima cuida da sua extensão e Morta corta o fio. Elas são chamadas também de fates, de onde provém a palavra fatalidade.

Durante todo o tempo em que escrevia o romance, dei-me conta de que essas figuras lúgubres estão mais perto de nós do que pensamos. Meus primeiros passos na escola aconteceram numa sala de aula informal. Andava duas quadras e ia bater na porta de um casarão na Batista Campos onde moravam três senhoras solteironas. Uma delas era a professora que alfabetizava as crianças do bairro e arredores. A sala de aula era uma varanda meio escura, com luz vazando de uma janela que dava para um saguão de onde vinha cheiro de galinhas e de galinheiro. Aprendi muita lição na marra, nos dias de sabatina, ao peso da palmatória e da dor provocada pelas pancadas que a tal professora aplicava em nossas mãos fechadas em punho, pancadas rápidas na junção dos dedos. Dava para ver estrelas. O que sobrava de gordura nas duas irmãs mais novas faltava na professora, que era seca, murcha, ossuda. Pareciam as Moiras. Ou as Parcas.

Esses tempos de tortura não duraram muito. E fui salvo pelo gongo. Ou melhor, quando minha mãe descobriu que eu estava com problemas de fala, pois soletrava algumas palavras como aprendia com a professora: eu estava falando tatibitati.

Fui literalmente removido da escolinha. Mas não guardei ódio da bruxa. A nova professora para onde fui levado era pior. Lição errada, joelho no milho. Ah, aquela branquela nazista!

Tudo isso ficou na minha cabeça. E me inspirou.