sábado, 19 de julho de 2014

Lá se vai mais um dia assim

Vida boa, vida breve, dizia o poeta Cazuza. By Ronald Junqueiro.


Alguma coisa acontece e a gente sabe do acontecido, que aquilo é verdade, mas custa a assimilar o fato como verdadeiro. Vi a notícia logo cedo, na sexta. João Ubaldo Ribeiro estava morto. Havia uma estranheza no ar. Mudei de canais para ver o noticiário em outros telejornais, entrei na internet, vasculhei as redes sociais e lá estava a notícia da morte do escritor. João Ubaldo já não estava entre nós. Ser apanhado de surpresa nos tira dos eixos, mais ainda ao acordar. A manhã lá fora, cheia de sol e da cidade em movimento e para dentro da gente a manhã continua iluminada, só que é uma claridade diferente, sem sombras; tem luz, só que a paisagem é fria, indiferente. Há tristeza em tudo, dentro e fora. E uma enorme falta de vontade de espantar a tristeza. Ela nem é má companhia.

É incrível como a gente lê tanto essa gente das letras que até parecem ser nossos parentes.  Nem os conhecemos pessoalmente e nem deles privamos da amizade. Mas nesse caso nem precisa. Os laços se fazem sem controle e nos pegamos muitas vezes falando dessa gente sem solenidade, sem os vermos como gente do outro mundo estelar. E a gente se pega muitas vezes falando do João Ubaldo Ribeiro, o Jubaldo como era tratado pelos amigos, que nem tivéssemos acabado de encontrá-lo ali na esquina e brindado à vida. Ele gostava de um gorózinho, teve problemas com o álcool e falamos dessas intimidades como se fôssemos testemunhas e companheiros.

Lá se foi João, o brasileiro berlinense que conquistou o mundo com a brasilidade de poucos. Deu adeus em um dia tão pesado, no dia em que um avião da Malásia que decolara de Amsterdã rumo a Kuala Lumpur foi atingido por um míssil e caiu na Ucrânia, perto da fronteira russa, matando quase trezentas pessoas que estavam a bordo, entre elas cem estudiosos do vírus da Aids.

Vida boa, vida breve. Nunca viveremos o bastante para dizer isso. Se olharmos para tudo o que Jubaldo fez na literatura, vamos ver que ele se foi menino. Agora é imortal.

A tristeza vai evolar-se. Essa palavra me traz tantas coisas à mente, mas é de pouco uso. Evolar lembra-me fumaça de cigarro, aqueles fios azulados dançando no ar até se desfazerem. Como a fumaça glamurosa saindo da piteira de Marlene Dietrich, acompanhada pelo som do gelo do uisquinho do poetinha Vinícius de Moraes, ou pela voz rouca da cantora Maysa que cantava fumando, ou pelo menos assim me lembro de uma cena a evolar-se em minhas lembranças. Fumaça e jazz. Faço tantas associações.

A tristeza me leva à contemplação. Fui atrás das águas. Parei na Estação das Docas, no meio da tarde, comprei um sorvete de bacuri e fiquei olhando o sol e seus reflexos. Mas a baía estava com águas meio cinzas. Tristeza é pra sentir. Não há o que pensar. Só lembrar e sentir. No paralelepípedo irregular soam passos. A água da baía lembra infância. As ilhas do outro lado de Belém, aventuras e travessuras de férias com a família.

E a tarde passa, há outras coisas a fazer...