sábado, 5 de outubro de 2013

Quando novembro chegar

A beleza do outono é cheia de colorações sutis. By Ronald Junqueiro

Entre o verão e o inverno que vivemos na Amazônia, a não ser que o planeta saia dos eixos e as mudanças climáticas nos surpreendam, dificilmente conheceremos o outono, uma das estações que sempre encheu meus olhos desde a primeira vez que vi a transformação das cores da natureza até que sumissem da paisagem dando lugar ao Senhor Inverno.

Risquei outubro do itinerário da berlinda.  O lançamento do livro será, agora, no dia 11 de novembro, a partir das seis da tarde, no Espaço Teatro Gasômetro, que fica nas terras do Palácio da Residência.

Como eu pressentia, a capa foi o nó de quatro pernas da questão da data para trazer o romance a público. Mordi a ponta da língua, respirei fundo e acho que fiz a coisa certa para evitar a angústia que seria a gráfica de São Paulo mandar um pacote de livros nas vésperas do lançamento. Correndo o risco de a remessa não chegar a tempo.

Foram apresentadas quase vinte propostas de capas, uma verdadeira peleja que durou mais de duas semanas. Não sei dizer se seria diferente, mas as decisões poderiam ser menos tumultuadas. No final, a inevitável exaustão mental.

Mas será também uma experiência inesquecível.

A capa foi criada a partir de uma foto que fiz do muro do Mauerpark e será usada na capa e contracapa quatro, mas ainda não vou publicá-la hoje, só quando o livro chegar a Belém, o que deve acontecer no final de outubro.

Achei bacana compartilhar esses momentos neste diário e encontrei alguns interlocutores muito bacanas como a Ana Luiza Couto, amiga de longa data que vive em São Paulo e que conhece de perto o barato das editoras por trabalhar nessa área; Karlen Ricke, artista gráfico e escritor, que me deu uma capa de presente e que vou guardar nos meus arquivos de “Berlinda”; a Daniela Figueiredo que conheço há zilhões de ano, gaúcha de fato, e que um dia irei conhecer pessoalmente. Eu acredito em amizades virtuais e é uma nova forma de gostar e de conviver. Foi assim que ganhei a amizade de uma pessoinha muito especial, a Elis Marchioni, jornalista, paulista apaixonada por Dalcídio Jurandir e pelo Pará. Este ano, quebrei a vidraça virtual e ganhei uma nova amiga, Letícia Castro, que também é jornalista.

Antecipo agradecimentos ao Flávio Nassar, que tem nariz de jornalista, e que anunciou o lançamento do livro antes de mim. É o que se chama “furo” e veio de onde eu menos esperava. E ao Salomão Laredo que já deu notinhas na sua coluna da revista da Fox. Thx.

Agora é esperar. Passo por uma espécie de vazio, por ter fechado uma etapa ao ver concluído o trabalho de edição. Mas tela de computador não é o livro impresso. Eu tenho essa visão por conta de trabalhar muitos anos na redação de um jornal e saber da delícia e do tormento que era editar a primeira página.

São duas coisas diferentes, mas o princípio é o mesmo. A primeira página é a vitrine do jornal. A capa do livro também. Pensar no título da manchete era um momento de testar a criatividade para sintetizar em uma linha de 30 caracteres o óbvio necessário. Um trabalho artesanal e coletivo. Nem sempre o editor acertava e dá para fazer uma compilação antológica de erros, gafes e estupidez ululante.

E depois que o jornal estava na rotativa, vinha o frio na barriga misturado ao cansaço de fechar mais uma edição. Estava feito e só nos restaria o dia seguinte. O devir. Aprendi muito com duas pessoas que me ensinaram jornalismo, no dia a dia, o Cláudio de Sá Leal e a Ana Diniz.

Agora é esperar o novembro de Belém, sem o outono a olhos vistos, mas com a mesma sensação e lembrança que guardo de Tokyo e de Berlim, onde fiquei fascinado por essa delicadeza da transformação que me inspirava esse tempo. Prefiro o outono à primavera. Primavera prefiro em cartão postal ou fotografia.

Um dos personagens do livro tem alergia a pólen e sofre horrores na primavera. Muitas pessoas são acometidas com a “febre do feno”, caracterizada por espirros, nariz úmido, coceira nos olhos, ataques de asma e conjuntivite. Conheci uma brasileira, andando que nem um zumbi à procura de uma loja de eletrodomésticos usados onde comprasse, em bom estado, um aspirador de pó, pois a casa onde morava fora invadida por uma nuvem de pólen vindo de um parque vizinho e ela não conseguia parar de espirrar. Coisa bizarra: a mulher, enlouquecida, usava aspirador nos cabelos, armado com tranças afro, pois o pólen lhe provocava coceira no couro cabeludo. Ela repetia a todo momento: “Tudo por causa da ambrósia”!

E só faltava arrancar as tranças ou se escalpelar.

A ambrósia comum, conhecida como Ambrosia artemisiifolia, é uma planta que chega a um metro de altura, nativa da América do Norte, que provoca a ‘febre do feno”. Ela se espalhou pela Europa. Mas não apenas a ambrósia provoca alergia. A bétula, o avelaneiro e a castanha da Índia também entram na temporada das alergias que começa na primavera.

Que tortura! A mãe Natureza também pode ser a madrasta má dos contos de fadas. O pólen ameaçava acabar com o sonho de casamento da tal brasileira que pensava voltar zarpada para o Nordeste. Literalmente, ela fora tocada pelo pólen da discórdia.