sábado, 30 de novembro de 2013

O escritor porta a porta

Podemos aprender com consultores de cosméticos a vender de porta em porta. By Ronald Junqueiro

Eis-me aqui pensando na vida. Olho as coisas em volta e um pouco mais atrás. A ressaca do lançamento do livro ficará trancafiada em novembro deste 2013 que está para nos dizer adeus e com ele se vai para algum recôndito. O dia 11:11, como gosto de marcar a data, foi se pulverizando e toda a poeira da festa baixou e virou uma camada de lembranças na memória. Todas essas datas que ganham um significado para cada um de nós aos poucos se distanciam, o eco dos risos, das conversas, do movimento, dos sons, dos flagrantes, dos nossos sonhos e insanidades momentâneas viram como que uma folha ou uma flor ressecada que se desidratará completamente entre páginas de livros que gente enfia num vão da estante, se é que essa imagem tem o dom de representar aquele instante, o que foi instantâneo.

O livro já deu uns saltos aqui e ali, chegou às mãos de amigos no Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Mas a editora Paka-Tatu começa a organizar a distribuição do romance em dezembro. Enquanto isso, eu preparei uma campanha pessoal para vender “Berlinda” e que coloco aqui na postagem de hoje.
E meu projeto brancaleônico “Escritor delivery” que surgiu acidentalmente no dia seguinte ao lançamento, quando recebi o telefonema de uma potencial leitora. E assim se deu a conversa:

- Alô! Eu estou ligando para saber onde posso comprar o livro “Berlinda – asas para o fim do mundo”. Na reportagem tinha esse número de telefone, mas não o endereço da livraria.

Minha cabeça que logo se enche de carbono e solta fumacinhas de desconfiança, já imaginava uma pegadinha. Fiz uma pausa com uma tripla agilidade mental para identificar a voz.

- Desculpe, mas que está falando mesmo?

- Estou interessada em comprar o livro. Será que liguei errado?

- Não, não, a senhora não ligou errado, Na verdade o número não foi substituído quando a matéria foi para os jornais... Mas se a senhora quiser posso providenciar a entrega do livro. Aqui quem fala é o autor.

Dito isso, nós dois caímos na gargalhada. Acho que ela não acreditava em mim. Daí fui adiante.

- Posso mandar o livro com autógrafo...

- É mesmo? Então eu quero já...


Prometi mandar deixar ou eu mesmo levar o livro, era só ter o endereço. Ela disse que morava um pouco longe.

- Eu moro no km 9 da BR 316...


Uau! Desânimo. Longe demais. Na rodovia. Saída da cidade. Calculei distâncias e o trânsito horrível para chegar à BR, engarrafamento por causa das obras do BRT. Desisti.

- Vamos fazer o seguinte. . – mas a freguesa adiantou-se.

- Eu já sei o que posso fazer. Mando minha secretária apanhar o livro. Qual é o seu endereço?

E não é que no meio da tarde alguém passou no apartamento para apanhar o livro? Dona Helena, que nem conheci, pois havia saído veio apanhar a encomenda.

Devo dizer que foi uma alegria enorme a primeira venda fora do lançamento.  Pedi para contar essa história à minha freguesa literária. Ela permitiu e disse que iria ler o blog para saber se eu contaria.

Obrigado dona Rita de Cássia Reis! E valha-nos a santinha Rita dos impossíveis – agora, protetora dos escritores independentes que fazem o possível e o impossível para escrever suas histórias.