sábado, 21 de junho de 2014

Breve viagem ao meu redor

Ao som da chuva que traz a alegria para os dias de verão. By Ronald Junqueiro


Ando com ímpetos de fazer poesias – sempre acreditei que poesias são feitas e não, escritas – mas me sinto aprisionado em mim. Em algum momento me perdi nas rimas, nos versos, na métrica e no olhar poético, que bebeu por anos a fio Fernando Pessoa e suas pessoas e outros poetas. Meu olhar em volta está sedento, seco que nem seca nordestina, murcho entre Gobi e Saara. Preciso alargar o caminho para que haja margens poéticas. Preciso estar atento aos atalhos que sejam oásis para a contemplação e o sonhar. Todos nós buscamos essa pausa para experimentar emoções em todos os sentidos, para deixar o coração livre ao ritmo do desassossego que alteram os batimentos durante as descobertas.
Para ler enquanto viajo na Berlinda.

Não sei se é boa ou má companhia

a tristeza discreta e difusa
que se posta perto de mim.
mas que não disse a que veio.
Não quero saber dos seus planos.

Ficará aqui na sala?
Atiçará meus desenganos,
- tantos que perdi a contagem?
Ou irá consolar a rainha
depois do embate entre
Costa Rica e Inglaterra?

Que se vá para Buckingham
onde a tristeza é real.

Devo ou não leva-la a sério?

Falta-me humor
para rir dos mistérios
e dos sortilégios

Como olhar a vida com simplicidade
daquelas que libertam os olhos
até mesmo quando eles adormecem?

Vejo o quanto desaprendi
a me desarmar diante da paisagem
a olhar para mim sem restrição
sem remorso e com mais ternura.

Há uma tristeza difusa,
sem eira nem beira
sem casa para pernoitar
sem moedas na algibeira
em busca de aconchego
sem quintal com fogueiras
para atirar-se feito vampiros
que perderam o gosto pela morte-vida
que perderam o gosto pelo sangue
que abominam o tempo tedioso
que corre nas veias das virgens
dos belos rapazes da noite
dos bandidos e malfeitores
ou da criança abandonada.

Dito desse jeito estou certo
que a tristeza há de suportar minha indiferença
com paciência de Jó e sabedoria zen

Pois que espere e entenda minha impaciência!

Que considere minha falta de tempo
que leve em conta meus interesses
que não menospreze a solidão
que aqui chegou bem antes
quando eu carecia de companhia
e a volúvel tristeza andava
em lugar incerto e não sabido
esbanjando coqueterias

Não me chame de egoísta
com tanta leviandade
há outros cantos na casa
onde  ela pode aquietar-se.

Sugiro que deixe suas coisas
entre os livros da biblioteca
lá há outras tristezas
histórias que lhe farão bem
algumas escritas com tanto esmero
que até eu mesmo choro
como se pranteia no desterro.

Olho de soslaio a tristeza
e juro que dela me compadeço.
Fantasiou-se com todo esmero
que até me põe sombras no olhar.

Pobre tristeza!

Poderia dizer-lhe que a porta da rua
é serventia da casa, ponha-se daqui!
Em tom de impropério.

Perdoe-me a indiferença
com a queda dos impérios
onde reinaram gloriosos seus ancestrais.
Entenda que aqui não é um reinado
mas sei construir pontes levadiças
contra as suas intempéries
e seu poder de fogo.

Não preciso de exércitos
nem de mercenários
para desarmá-la.

Basta que eu apague a luz,
deixe a sala e vá dormir.
A noite passará e o dia virá,
não queira antecipar as horas
achando que o sol
virá para o café da manhã.
Os dias são nublados
mas a chuva pode trazer alegria
que vem molhada e rindo
como criança que não evita
a poça d’água e fica inebriada
com o cheiro da terra molhada
e das flores que dançam no jardim
vizinho do meu imenso pomar.

Ah, que tristeza difusa
que se esconde sob camadas de véus!
mas que não conhece Sherazade
nem da alcova os segredos
nem a chama que em mim arde
por amor que virá sem alarde.
E ainda que lhe pareça tarde
Isso não significa que seja o fim.