sábado, 7 de junho de 2014

Ficção e real, onde está o fio da meada?

Berlinda Band na segunda apresentação pública, no Hangar. By Suely Nascimento.

O encontro de escritores paraenses realizado na sexta-feira, dia 06/06, do qual eu participei juntamente com os jornalistas Walter Pinto, autor do livro “1932 – A revolução constitucionalista no Baixo Amazonas”, e Ruth Rendeiro, que escreveu “Até que o câncer nos separe” foi um momento na viagem do meu romance “Berlinda – asas para o fim do mundo” que teve uma dose especial. Pela segunda vez a música da trilha sonora esteve presente com o conjunto que nasceu nesse encontro da ficção com o real. E agora parece que a turma da música deu mais um passo para oxigenar a Berlinda Band, que na formação original tinha o Hélio Silva, no violão, mestre Ginja, no Djambe, Gabriel Gomes, na percussão, Marinho Gtr, no violão e a voz de  Reginaldo Viana.  Ontem, a Berlinda Band contou com o auxílio luxuoso do compositor e cantor Firmo Cardoso, um dos meus parceiros na trilha musical do romance, que está a caminho, no CD que será lançado em breve. O outro toque especial ficou sob a responsa do Kassio, no acordeon.

Além da banda foi exibido o clipe do samba-enredo “Derruba o muro, mistura tudo e que Deus nos Acuda”, dirigido pela jornalista Adelaide Oliveira e com edição de Savio Palheta.

O tempo definido para o evento foi curto.  A banda teve que cortar duas músicas do pocket show que havia ensaiado e deixou um gosto de quero mais. Mas vai ter bis assim que o CD chegar a Belém.

O romance “Berlinda” me abriu caminho para mostrar a fusão da literatura com outras expressões artísticas. Lembro-me de que quando escrevia o livro, a imaginação do escritor me jogou também para outro mundo paralelo. Lá, comecei a escrever letras para alguns personagens e que já traziam consigo a intenção de serem musicadas. Acredito que seja um trabalho inédito até que se prove o contrário. Pelo menos por essas bandas amazônicas não conheço uma experiência semelhante. Penso que “Berlinda” é o primeiro romance com trilha musical independente.

Quando apresentei o romance e a música em Berlim ficou mais claro na minha cabeça que a experiência solitária do escritor poderia ser repensada no que fazer depois do livro escrito. O livro, quando ganha o mundo, por mais que passeie de mão em mão não descontrói a experiência do isolamento e da solidão vividas pelo leitor. O livro vai para a mão de anônimos, não há qualquer interação entre escritor e leitor para festejar o fim da clausura.

Se o livro ganha uma versão para o cinema, por exemplo, a história é terceirizada, sem a interferência do autor, em alguns casos. Acontecerá o mesmo se o romance ganhar uma adaptação teatral e até mesmo de balé, a ausência do autor no processo criativo.

Quando conclui “Berlinda” e parti para a criação de uma trilha para os personagens, fiz uma interferência direta.  Quebrei o isolamento em que vivi enquanto escrevia e tornei a história do romance num projeto coletivo. Chamei parceiros e criei uma ponte e um chão para o livro ser ouvido, pois estava carregado de musicalidade e queria sair do pedestal onde a literatura fica ou a colocam. A música é popular, a literatura não é massificada. Dei um livro para cada um parceiros e nos encontros realizados no estúdio de gravação, sempre tínhamos um tempo para que falasse do romance e da ideia sobre a trilha. Foi um bom trabalho de imersão. Todos assumiram o projeto com muita garra e disposição de dar o melhor de si.

A criação do vídeo com o samba-enredo do último capítulo do livro deu uma mostra da visualidade de literatura e também virou processo coletivo.

O surgimento da Berlinda Band foi um momento especial e marcante que tornou o livro mais presente nessa semente que plantei com algumas dificuldades no tempo de semear, mas que nem cabe aqui enumerar.

Quem produz cultura no Brasil, e é a maioria, não um grupo privilegiado por ausência de uma política cultural que seja para todos, sabe muito bem que meter a mão na massa e suar a camisa é a realidade. Além de ser um esforço operário é preciso ter vocação franciscana para concluir projetos que nascem de sonhos, ideias e ideais. Não é necessário fazer voto de pobreza, mas ter consciência de que o caminho das pedras pode ser longo e doloroso. Mas quem o escolheu que vá em frente ou entre no próximo desvio. Quem vive na Amazônia deve ter em mente que não somos um polo cultural na pátria amada salve salve! E minha experiência como leitor, principalmente, diz que santo de casa não faz milagre. Assim como os muros existentes ou já demolidos, como o de Berlim, temos outros muros, alguns sutis, outros no limbo da memória, outros como elementos do cenário e talvez mais naturais, como silêncio das selvas e um caminho arbóreo para ultrapassar. Ainda persiste uma ideia de que aqui só tem mata e que nossas ruas sofrem congestionamento provocado por jacarés.

Chega a ser risível, mas a Amazônia ainda não foi descoberta e sua produção cultural menos ainda. Nesses muros erguidos ao longo dos séculos, esquecem que além do meio ambiente há territórios habitados e que o povo daqui faz parte da história local, produz sua própria história e que não pode mais ser excluído, faça tempo bom para alguns ou tempo ruim para todos. E isso não é ficção.