sábado, 25 de outubro de 2014

Berlinda: primeiro capítulo

O tempo marcado. Viramos escravos das horas. By Ronald Junqueiro



BERLINDA 1

Belém era o fetiche urbano. Berlin, o longínquo fetiche do outro lado do oceano. Duas cidades que desembocavam no coração do viajante e escorriam para uma Atlântida soterrada que sonhava com o oxigênio. Placas da memória moviam-se e formavam bolhas de ar, buscando a superfície. Uma ou outra conseguia escapar através dos seus olhos, gota a gota, feito lágrimas, brilhantes. O viajante acompanhava a lenta procissão que cercava a berlinda desfiando histórias, ora de amor, ora de dor. E nesse vagar testemunhava a epopeia das banalidades que se mostravam muitas vezes em preto e branco. E, assim, seguia a berlinda, feita não só para padroeiros ou nobres senhores, mas também como guardiã de casos ordinários.
                                                                      

Verão europeu, 2006

Dias claros mais longos. Leo estava na estação, sentado ao lado da mala, olhando o relógio da plataforma, à espera do embarque no trem que partiria no meio da tarde ensolaradamente viva. Próxima parada, Berlin. Ainda não havia movimento intenso na plataforma do embarque. Ele chegou muito cedo. Hábito antigo, preferia chegar uma hora ou pouco mais antes da partida. Na Alemanha, os trens saíam no horário se nada de excepcional acontecesse, e, quando se aproximava a hora do embarque, formava-se um formigueiro de gente afoita para entrar nos vagões já que o trem não ficava muito tempo parado. Leo apreciava esse vaivém na estação. Esperava por Zarah, que conhecera numa festa em Colônia. Eles viajaram para Frankfurt am Main numa sexta-feira e combinaram encontrar-se na estação naquele domingo. Os dois iriam para Berlin (1), onde Zarah o hospedaria por duas semanas.

 Os olhos não desgrudavam do relógio e do placar que anunciava o próximo comboio. Martelou na cabeça a mesma ansiedade, uma quase acusação: “Cheguei muito cedo... bom, melhor assim, já pensou pegar o trem errado?”. Paranoia de viajante. Mas já acontecera de ele reembarcar, em Lisboa, uma brasileira que havia pegado trem errado em Paris. Ela colou em Leo quando ouviu que ele falava português no corredor do trem com uma garota portuguesa que morava em Marselha, uma dançarina lisboeta com alguns quilos acima do peso que iria visitar os pais. A nervosa senhora de meia-idade chamava-se Maria de Nazaré, era de Belém do Pará, devota da Virgem e morava no bairro de Nazaré. Não dava para esquecer o nome e a cara de pânico da passageira perdida. Em Lisboa, ajudou a mulher a comprar nova passagem para Paris. Encheu a cabecinha dela com recomendações, informações sobre duração da viagem, paradas do trem até a Gare du Nord, seu ponto final. Que fim levou Maria de Nazaré não fazia a menor ideia. Mas esse acontecimento, tão insignificante para ele, desatou a sensação que todos nós vivemos assim, em permanente trânsito, ou que a presença das coisas e dos fatos é transitória na vida de cada um de nós, viram lembranças, simplesmente. Dia de viagem deixava-o ansioso. Como hoje. Chegou à plataforma e foi direto checar o ponto de embarque, caçar o vagão. A cabeça do viajante funcionava como carrossel. Será que Zarah viria? Com certeza viria... Ah, que mania essa de pensar o pior em algumas situações! Sua taxa de pessimismo estava mais desregulada que o colesterol. Como chegaria a Berlin sem saber onde ficar, sem um plano emergencial, sem uma intenção? O pior é que nem fizera planos... Pô! Ninguém o aguardando em Berlin, a não ser a cidade.
 Zarah chegou em cima da hora. Desculpou-se por não ter vindo um pouco antes. Ele nem prestou atenção ao que ela disse. Entraram no vagão, colocaram as malas no bagageiro e acomodaram-se nas poltronas ao lado da janela. Leo ficou na fileira do lado direito. Zarah pegou um livro, colocou-o na mesinha central e aquietou-se na poltrona da janela do lado esquerdo. Quando compraram as passagens em Colônia, não conseguiram reservar poltronas contíguas. O caso agora era esperar o trem partir e tentar trocar de assentos com algum passageiro de bom humor. O trem se reanimou, qual bicho que rastejava até ganhar velocidade na intenção de dar o bote.

 Um vagão limpo, climatizado. Tudo clean demais e sem a atmosfera dos velhos romances policiais, dos filmes em preto e branco, sem os mistérios das viagens que povoavam a imaginação com crimes insolúveis ou mortes encomendadas, com assassinos disfarçados de passageiros comuns, insuspeitos. Os trens modernos não tinham esse clima de suspense, faltava a eles a luz mortiça do cenário, o som de fundo, das rodas arranhando os trilhos e uma trilha sonora a eriçar os pelos dos braços. Zarah acompanhava a saída do trem a distanciar-se da estação, olhar distraído através da janela.

 A viagem deveria durar cerca de quatro horas e meia. Estariam à noite na estação central de Berlin. Leo via a paisagem através da janela como se tudo viesse contra ele, na sua direção, provocando lembranças. A janela virou tela. Janela com vidraça sem manchas, quase um plasma de tela plana. Do ângulo em que se encontrava, podia regular a nitidez das imagens que começavam a se formar naquele movimento do trem, hipnótico, que o deixava meio dormente.

 Do nada, uma foto em preto e branco de uma velha revista apareceu congelada na superfície envidraçada. Miragem. Pressentia que não estava acordado e criava ilusões, viajava pela imaginação. De repente, a foto se animou, um soldado andou de um lado para o outro próximo a um cercado de arame. Um grupo de pessoas conversava ao fundo. Um dia comum na Berlin dividida. Inesperadamente, o soldado voltou o olhar para o outro lado, correu e pulou a cerca de arame farpado, deixando para trás o que seria, mais tarde, o muro que faria da cidade uma ilha. Sobre a imagem foi se formando uma legenda que não traduzia o significado do salto nem a emoção do soldado. Mas legendas não foram feitas para traduzir emoções; eram escritas, muitas vezes, só para enfatizar o óbvio: “Ein Volkspolizist springt in die Freiheit”. Leo lia a legenda e ouvia a própria voz ecoando na cabeça, como se fosse o narrador da cena. Um estado letárgico que o deixava ausente do que se passava no interior do vagão. Relaxou, largou-se na poltrona, cabeça meio inclinada para o lado direito. E, nesse estado de sonolência, Leo roteirizou um filme. Câmeras! Ação!

 — Pule, Conrad, pule!
 A Alemanha em fuga – recorrente impressão de que a Alemanha sempre fora uma pátria que fugia de si mesma para esconder-se de uma tragédia sem tamanho que manchou o mapa com respingos de sangue. Fugir. Tudo se mistura, as imagens se
perdem e se encontram no tempo.
 De repente, outra cena: numa esquina, materializa-se uma jovem correndo, uma corrida desastrada. A fuga real mimetiza-se na ficção, camufla-se.
 — Corra, Lola, corra!
 Realidade e ficção dançam valsa num grande salão espelhado e são gêmeas que se movimentam no mundo da percepção de cada um de nós. Uma hora aparece Conrad e, em outro momento, ele é Lola. Na próxima sequência, ela se transmuda para Conrad. O soldado salta para a liberdade, desafia obstáculos, barreiras, barricadas, o muro da opressão que dominou a cidade por quase 30 anos. O soldado nem sabe que liberdade é impulso. Historiadores, escritores, críticos, intelectuais, humanistas, humanoides estrategistas, revisionistas, generais, todos sabem que nem sempre dá certo planejar a liberdade, que alcançá-la envolve riscos, que isso pode ser fatal. O salto pode ser tão perigoso quanto a liberdade de expressão.
 Conrad correu sem perceber as lentes do fotógrafo que iriam eternizá-lo, mostrando também ao mundo a fragilidade dos obstáculos, dos muros erguidos em concreto e o alcance das asas abertas compartilhando a possibilidade de ser, mesmo diante do risco de ver que o sonho será derretido pelo sol. Saltadores de muros acalentam sonhos de Ícaro.
 Outro plano. Lola em cena. Corra, Lola, corra! O drama moderno vibra no corpo da jovem cortando Berlin numa corrida alucinada de 20 minutos para salvar o homem a quem ama, é uma corrida de vida e de morte. O tempo é o começo e o fim, um
lapso, um acidente, um viés da vida por onde atravessa o amor, capaz de nos fazer escalar montanha e chegar ao pico, mesmo arriscando a encontrar nada. Ou morrer.
 Estou rodopiando no meio dessas colagens imaginárias, às vezes confusas. Berlin de ontem, em preto e branco. Agosto de 1961, numa certa esquina da Ruppinerstrasse com a Bernauerstrasse. Berlin de hoje, colorida, moderna, pichada, cidade aberta. A história do soldado poderia ser contada em quantas versões quisesse qualquer diretor se a vida de Conrad fosse um roteiro cinematográfico. Imagino o que Conrad Schumann sentiria vendo a corrida de Lola para encontrar-se com Manni, seu bem-amado. Imagino Conrad de mãos dadas com a mulher, Kunigunde, deliciando-se com uma caneca de chope e um grande saco de pipocas numa sessão de cinema num drive in, vendo a disparada de Lola pelas ruas de Berlin. Na ficção, dá para voltar a fita, brincar com os cortes e montagem, reescrever roteiros e diálogos, mas é impossível viver em três tempos na vida real.
 Para Conrad, isso não é possível, ele se despede do mundo no mesmo ano em que Lola invade as telas dos cinemas mundo afora. O roteiro que o saltador da cerca de arame farpado escreve para si não antevê um final menos melancólico. A depressão que assalta Conrad deve estar povoada pelos fantasmas da divisão de Berlin, pelas vítimas do muro. Quem há de dizer que Peter Fechter, o primeiro a tombar num salto mal calculado, aos 18 anos, cheio de sonhos e coragem juvenil, não habita esse território opressivo para onde Conrad escapa?
 Na minha miragem, tudo é tão próximo como a ironia do destino que une Conrad a Kuningude, a amada que conheceu em Günzburg, cidade onde nasceu Josef Mengele, o anjo da morte, alma negra que ainda hoje assombra vítimas da guerra.
 Final da primavera. Junho, 1998. O corpo do ex-soldado balança no jardim de sua casa, em Oberemmendorf, próximo a Kipfenberg, cidadezinha com pouco mais de cinco mil habitantes, na Bavária, onde ele morava. Um corpo coberto de pólen para a cerimônia do adeus. Um corpo suspenso e imerso na estação colorida que não disfarça o luto.


O trem parou em Fulda. Leo olhou o relógio, tentando fixar o tempo. O relógio soava como uma dependência patológica ao tempo. Ali tudo tinha que ser cronometrado. A viagem já durava uma hora. Zarah não estava no vagão. A poltrona ao lado de Leo continuava desocupada. Ainda inebriado pelas imagens de Conrad e Lola, ele pensava na guerra e no seu legado para o mundo. Heranças feitas de ruínas e destruição, de ódio a vitimar outros povos em nome do poder. Sentia-se confortável nessa quietude e, contraditoriamente, entediado. Outras cenas invadiam suas lembranças. Como a Berlin sob a pele de camaleão urbano renascido não apenas nas ruínas do Tiergarten, mas no coração dos que sobreviveram. A cidade recompondo-se sobre as imagens brutais que revelaram ao mundo o odor da morte impregnando todos os cantos, vindo dos campos de concentração onde corpos se amontoavam como pilhas de madeira prontas para se transformar em fogueiras.
 Retornar à Alemanha era sonho antigo de Leo. Era mais uma viagem afetiva do que de aventuras. Carecia de uma energia titânica de quem caminhava para os 50 anos. Como o tempo passava! Mas tinha que ser no verão, que ele achava ser a cara de Berlin, muito mais que as outras estações. Recordava-se de uns dias de chuva na cidade, uma sensação que não era aprazível como as chuvas em Belém, mornas. O verão – muito quente, na verdade – era um momento especial com a luminosidade da estação em Berlin. Ali, vivera, também, um pouco da primavera que parecia com cartão postal, com o colorido intenso das flores e o verdejante das folhas. Não havia primavera na Amazônia. “Primavera, ah primavera! Estação que não é bem-vinda por todos. Isso eu acabei aprendendo. As cores de uma fotografia não são maléficas como na vida real”, ele brincava com esse jogo de impressões. Pensava que a primavera, suas cores e seus cheiros não eram bons para os olhos e o nariz de Manfred, um estudante que conhecera na primeira vez que estivera em Berlin, quando a cidade estava enjaulada entre muros.
 Manfred ficou guardado por muito tempo entre cartas que trocaram no início da amizade e que foram rareando pela força da distância entre eles até que um dia cessaram. E que, depois, se foram extraviando nas mudanças de Leo. Mesmo assim, não o esquecera completamente. Branco demais, alto demais, desengonçado demais, falante demais e bem-humorado. Nariz avermelhado demais na primavera, sofrendo com o ataque do pólen das gramíneas, das árvores, das flores. Leo sorriu, lembrando-se de Manfred e do inseparável pacote de lenço de papel de bolso. Manfred morrera num confronto entre policiais e manifestantes antifascistas e neonazistas. Uma pedra o atingira na testa, à altura do olho esquerdo, e o fez perder os sentidos. Na queda, ele bateu a cabeça no meio-fio. Os amigos tentaram reanimá-lo e conseguiram socorro. Havia o ferimento na testa provocado pela pedrada, mas o pior veio com a hemorragia interna causada pelo impacto na queda na calçada.
 Berlin era isso e muito mais. As ausências. A saudade. O fogo. As cinzas. Os escombros. Pó. Pó que nem praga. Como o pólen. “Se pólen fosse radioativo, Chernobyl usaria flores como matéria-prima para produzir armas a serem usadas nos atentados terroristas”, escrevera Manfred num cartão postal que enviara a Leo na primavera de 1986.
 Memórias, memórias, assim a humanidade construía sua história, trama de verdades e mentiras. Essa dualidade também fazia com que Leo lembrasse Manfred.
 O fiscal pediu o bilhete, Leo saiu do torpor momentâneo. O funcionário pegou a maquininha e perfurou o cartão, mais um para a coleção. Agora Leo – um viajante e suas manias – colecionava bilhetes de trem e tíquetes de metrô. Primeiro, foram os chaveiros, peças da primeira tentativa de ser colecionador de alguma coisa; depois, vieram os adesivos, bótons, selos, caixas de fósforo, postais. Perdeu o gosto por todos. Não havia uma razão arqueológica para ser fiel a essa quinquilharia nem espaço nas gavetas, além do que lhe faltava disciplina e o espírito metódico para ordenar o monte de miudezas que se ia acumulando por algum motivo difuso. Essas manias obsessivas foram se esvaziando depois de ler José Donoso. O obsceno pássaro da noite, romance do escritor chileno, era um desses livros que nos respondiam como se fossem oráculo. O que é caro para uns pode ser inútil para os outros, como mostrava a disputada herança da velha morta no asilo. A embalagem mais cobiçada que as asiladas acreditavam esconder uma peça valiosa, uma pedra preciosa, uma joia rara, guardava como relíquia apenas uma asa de xícara. Só a morta sabia o significado e o valor daquele pedaço da louça. Essas coisas são os elos de cada um com o mundo real, suas coleções de inutilidades. O que ele mais gostava de fazer, na verdade, era colecionar personagens e autores. Sempre havia algum a tirar da cartola. Essa mágica aprendera no Auto de fé, o único livro de Elias Canneti nas suas estantes, e que comprara em um sebo. Imaginava as bibliotecas como espaços habitados bem mais do que pela fileira de lombadas e títulos. A bagagem do viajante não comportaria as obras de Fernando Pessoa e todas as suas pessoas, mas poesias e personagens caberiam em qualquer cantinho da mala imaginária e povoariam as almas dos seres humanos. Que censo maluco realizaria a contagem precisa dos habitantes desse território insondável, terra das criaturas e da fantasia na cabeça de cada mortal?
 E as horas passavam. Pernas amortecidas. Ele pegou uma Der Spiegel que alguém esquecera na bolsa da poltrona em frente à sua e folheou-a sem muito interesse. E o tempo custava a passar. Zarah agora estava grudada num romance do cubano Alejo Carpentier. A cadeira ao lado de Leo estava ocupada e ele nem havia notado. Pediu licença ao passageiro vizinho para sair ao corredor e esticar as pernas. De relance, conferiu o vagão. Estava cheio. Uma família ocupava a fileira atrás de Zarah. Mãe, duas
meninas e um bebê. Um jovem de cabelos longos, louro, barba malfeita, enfiado num iPod, como se o mundo fosse outro mundo, exibia uma cara de ausência. Um casal ria e se deliciava em arrulhos de paixão, havia um jeito de namoro fresco. No início do vagão, dois senhores que ele imaginava, pela cor da pele e pelos trajes, serem indianos discutiam com o fiscal e não se entendiam. Aos poucos, ia chegando mais gente, vinda de outros compartimentos. Leo foi ao vagão-restaurante tomar um café. Zarah não quis acompanhá-lo. Voltou e cochilou mais um pouco até despertar com a mão de Zarah tocando seu ombro.
 — Leo, temos que mudar de trem. Aconteceu algum problema na estação. Você entendeu a informação no som interno?
 — Não. Ouvi só a palavra Achtung! Mas não prestei atenção. O que houve?
 — Parece que alguém cometeu suicídio. Um jovem teria se jogado nos trilhos quando o trem parava na estação.
 — Onde nós estamos?
 — Em Kassel.
 O vagão rapidamente esvaziou-se. Passageiros andavam rápido, em filas duplas, atrás de um novo vagão do trem para onde estavam sendo transferidos. A notícia dada pelo sistema de som era tão burocrática... Alguém se suicidara, e era como se o sujeito tivesse escorregado em uma casca de banana. Os trens não podiam parar, nem o tráfego ficar refém de um suicida, o trânsito tinha que fluir sem atropelos. Os horários a cumprir. A vida rodava na paranoia dos ponteiros. A vida continuava. Não para todos, evidentemente. Alguém sempre ficava para trás. Com ele não era diferente, assim pensava.
 — Vamos nos atrasar na chegada?
 — Quase nada. Para a companhia, foi apenas um incidente. Mas não vamos descer na estação central como antes. Nossa parada será Spandau.
 Spandau soou familiar. Era um nome ligado à guerra, sempre a guerra, entranhada em cada poro da história daquele povo. O bairro abrigou a prisão de nazistas e foi demolido depois da morte de Rudolf Hess, que ali viveu 20 anos e que praticamente foi, no final da vida, o único prisioneiro a ficar no local. Berlin, cidade que oferecia uma intimidade histórica, como se todos fossem testemunhas atemporais de tudo o que ali se passou. Ela refletia, que nem espelhos bem polidos, uma produção lucrativa ao alcance de todos. A guerra gerava produtos muito mais vendáveis do que a paz. As cidades, além de cenários, eram protagonistas.
 Desta vez, Leo e Zarah sentaram-se na mesma fileira, lado a lado, no novo vagão. Zarah comentou sobre a notícia do suicídio. Zarah falou que o fato logo seria esquecido. Não era a primeira vez que isso acontecia. Leo pensava no que ela dissera:
 — As tragédias nos dias de hoje são de curtíssima temporada. Tudo é muito rápido.
 Ficou em silêncio e intimamente concluiu que o suicídio acabara por ser apenas mais um evento banal que viraria manchete se fosse morte de alguma celebridade. Zarah manifestou-se angustiada com os rumos das tragédias que as pessoas anonimamente acompanhavam ou das quais eram testemunhas e de outras que se avizinhavam. Ela, como que adivinhasse os pensamentos dele, comentou:
— Ah, Leo! Para entrar na história, tem que ser catástrofe, como uma colisão ou descarrilamento de trens com dezenas de mortos e centenas de feridos.
 — Então, Zarah... e ainda assim será tragédia com tempo de validade. Em breve, será arquivo morto para dar lugar a novas tragédias.
 Muita coisa ocorre na trajetória da humanidade e as pessoas nem se dão conta sobre o que de fato aconteceu. Assim como passam ao largo de outras tantas coisas que estão próximas de si. Quem desconfiaria de que um pacato vizinho escamotearia a violência com pequenos gestos de gentileza? E as tragédias clássicas podiam ser vistas nos dias de hoje, povoadas de medeias e édipos, de páris e helenas de troia, de romeus e julietas. Os nomes próprios agora são escritos em letras minúsculas por causa da banalização dos dramas humanos. Há incontáveis tragédias aprisionadas entre quatro paredes que jamais serão conhecidas. E, muitas vezes, o sujeito sente-se pacificado diante de uma tragédia que não é a sua. Um suicida jogou-se nos trilhos. Um fato que poderia ser banal como jogar um pedaço de papel numa lixeira ou na rua. As estações permaneciam. Os passageiros iam e voltavam. Ou não. Os suicidas, estes não ficavam, não voltavam.
Berlin. Noite. Spandau. Leo sentiu o coração acelerado, cheio de uma saudade indefinida, de uma sensação noturna. Trechos à meia-luz, a baixa iluminação em algumas estações do metrô, janelas reveladas pelo clarão de um televisor ligado que se via do lado de fora. Ou a luz que vazava de escritórios ainda abertos. A solidão era passageira de muitos vagões. A voz que anunciava cada parada denunciava um entrar e sair mecânicos. De Spandau até Berlinerstrasse eram dez paradas. E veio-lhe à cabeça a estação de Pulitzbrücke, lugar de onde saíam os judeus para os campos de concentração. As estações permaneciam até hoje indiferentes a esse ir e vir, ao movimento de passageiros, o que parecia às vezes um sem destino ou o colapso. Havia tantos lugares em Berlin por onde ele nunca passeara... Leo adorava a sonoridade de alguns nomes, como Prenzlauer Berg, Moabit, Hansaviertel, Pankow, Tempelhof, Tegel, Görlitz. Desta
vez, queria ver de perto a Bernauerstrasse e o Palácio das Lágrimas que abrigou as tristezas das despedidas entre as duas cidades separadas pelo muro. A cidade tinha um lado melancólico nas horas noturnas, abaixo das sombras. E por ela passeavam fantasmas. Apesar da atmosfera cinza, lá no fundo havia uma certeza de que Berlin tinha vocação para a festa.
— Você quer comer alguma coisa? — perguntou Zarah ao saírem da estação da Berlinerstrasse. — Há um pequeno restaurante turco perto de casa.
— Vai bem um döner kepab? — propôs Leo, estalando a língua. — E uma cerveja!
 Zarah riu e Leo descobriu que ela tinha um riso bonito. Um döner kebap era como um “cachorro-quente adubado”, como se dizia em Belém. Um senhor cachorro-quente, não um hot dog magro, com uma salsicha magra, regado a catchup e mostarda. Zarah parecia mais relaxada: “Vamos degustar uma típica comida alemã da cozinha experimental da Turquia”. E os dois riram. Ela, espirituosa. Ele achava, no seu caso, que fora mais um espasmo de fome.
 Depois da parada no pequeno restaurante turco, seguiram por uma rua arborizada. Árvores de copas densas deixavam a impressão de que as calçadas não eram bem iluminadas. O silêncio enfatizava os sons. Ouviam-se os passos nas calçadas. Dos dois lados da rua, fileiras de carros eram obstáculos no meio-fio. Os moradores estacionavam onde havia uma vaga. Os prédios não possuíam garagem. Os edifícios, de cinco andares, eram construções geminadas, de arquitetura pesada e previsível. Leo pôs-se a rastrear as janelas, a alma das casas. Cortinas brancas, bordadas. Vasinhos, objetos decorativos nas sacadas.
 Uma luminária em forma de cisne flutuava na escuridão que tomava conta das janelas alinhadas. Em outra sacada, uma réplica verde da Estátua da Liberdade sobressaía atrás do balcão ocupado por plantas carregadas de folhagem e trepadeiras. As fachadas eram na cor bege e as portas dos prédios, tão previsíveis quanto as fachadas – altas, pesadas e escuras. A do edifício de Zarah era marrom. A do prédio do lado direito, verdechumbo. Uma lâmpada de baixa voltagem deixava à mostra a numeração do prédio. Numa lateral da entrada, as campainhas com a identificação das famílias. No primeiro andar, os Boscher e os Klein. No quarto andar, um dos moradores era Zarah. Apartamento dos Zimmermann.
 Os sentidos se afinaram. O hall era igual ao de outros prédios já conhecidos. Havia um enorme espelho na parede lateral esquerda. O piso era como jogo de xadrez, preto e branco. Um lance de quatro degraus levava ao único elevador, antigo, estreito, portas pantográficas, de film noir Um elevador igual aos que apareciam em velhas produções americanas de suspense e de mistério.
 Zarah mostrou o quarto que reservara para Leo. Roupa de cama, um jogo de toalhas brancas. Podia usar o que havia na sala de banho. Dois frascos de xampu usados e outras amostras grátis e papel higiênico. Na embalagem, a marca bem-humorada, Guten Morgen. Ele arrumou as coisas pessoais num armário de canto, ao lado do espelho. Pegou o papel higiênico, feito de material reciclado, e logo pensou que todas as bundas precisavam de um bom-dia a qualquer hora do dia ou da noite, aquelas bundas que sofriam de insônia ou que conviviam com hemorroidas. E, nos dias de hoje, se fossem bundas politicamente corretas usariam papel reciclado. “Para entender o que seria uma grande cagada, era preciso filosofar em alemão”. Riu sem graça de si mesmo. Confessou a grande decepção pela falta de talento para criar frases humoradamente inteligentes. Concordou que acabara de fazer uma frase idiota. E continuou a rir, demente.
 Na cozinha, Zarah passava um café fresquinho. Uau! Cheirinho bom! À mesinha redonda, alguns salames, torradas e suco de maçã. Ela serviu o café em canecas elegantes. Leo atacou o döner kebap com uma fome de mil anos. Num cantinho da mesa, um cinzeiro de metal. Zarah acendeu um cigarro que ela mesma fez.
 — É mais barato fazer o próprio cigarro — justificou-se. — Você fuma?
 — Parei há algum tempo, mas aceito um por hoje, por voltar a Berlin. — Ela enrolou mais dois cigarros. — É um prazer fatal.
 Acenderam os cigarros e a fumaça se misturou à conversa de fim de noite, entremeada por algumas banalidades. Afinam-se ao achar que as coisas banais nos roubam tempo de uma forma tão silenciosa que nem nos apercebemos dessa verdadeira tragédia cotidiana. Seria mesmo uma tragédia a vida feita de pequenas coisas?
 Zarah fez um relato de como seria sua rotina da semana e desculpou-se por não poder dar ao hóspede muita atenção. Andava atarefada demais com a mudança para outro país e com os desvios de uma nova vida à vista. Cuba era o destino. Estava otimista com a viagem. O desemprego, contas a pagar, o apartamento imenso, a falta de perspectiva, tudo isso era muita coisa para ela no momento. Queria traçar outro rumo. Essa vontade de largar as coisas para trás a deixava animada. Exigia muito, mas a enchia de coragem.
 A noite de julho era quente, abafada. Berlin estava em festa, fervilhava com a explosão da Copa do Mundo, com a invasão de gente de todo canto do planeta. Nas ruas mais para o centro, nas vizinhanças da Kudamm, e para os lados do Mitte, havia muita festa e bares cheios. E em Potsdam. Mas isso não interessava a Zarah. Nos prédios da rua onde ela morava, não se via sequer uma bandeira alemã nas sacadas. Ela deu boa-noite a Leo e disse que, no dia seguinte, ficaria fora o tempo todo.
 Na manhã subsequente, o viajante acordou tarde. Através da janela semiaberta, vinha a claridade do dia. No prédio em frente, do outro lado do jardim, deparou-se com uma janela escancarada. Viu um homem passar rapidamente envolto numa toalha. Velhas e conhecidas janelas indiscretas como as dos jardins, dos pátios dos velhos edifícios de Berlin continuavam em seus lugares. Na cozinha, sobre a mesa, uma cesta com morangos, um mapa da cidade e um bilhete de boas-vindas deixado por sua anfitriã entre os morangos. Leo foi até a janela, aspirou fundo e murmurou com gozo.
— Bom dia, Berlin!