sábado, 15 de novembro de 2014

Palavra e despalavra



A nudez dos anjos e dos homens concretizadas na tela nada revela além do corpo, da forma, mas é uma ode ao organismo vivo e ao mesmo tempo ao ser etéreo na composição do artista. Alguns dizem que o corpo é a casa da alma ou o seu cárcere, que não pode ser maculado para não macular a alma. Mas a alma não precisa da pele. Ela já flutua no divino líquido amniótico, onde a nudez não é castigada. A nudez todos podem ocultar sob ricas sedas e armaduras, por convenção ou punição. Mas o nu é concebido sem pecado. No mais, a contemplação e o desejo podem mudar a sentença na criação do elogio ao belo e aos homens e mulheres dizer que a nudez pode ser premiada pelas ondas da paixão, pela febre do amor, pela arte a botar beleza em nossos olhos e em inesquecíveis noites e madrugadas. Ou à luz do dia.

Esta tela é de Hostyano, um artista brasileiro, preciso conferir de que estado nordestino. Assim que souber detalhes, volto aqui para atualizar informações.

Conheci esta tela há anos, na casa de um amigo que pra mim é um espaço encantado. Atualmente nos vemos pouco, mas qualquer brecha para um encontro já me deixa imensamente feliz. Como já disse outra vez, ir vê-lo é como se vivesse uma versão do conto Música para Camaleões, de Truman Capote, um escritor que está entre os meus preferidos. Com direito a chá e bolo caseiro. Ele é muito discreto e por isso não digo seu nome, posso batizá-lo de Wolf, um desgarrado. Tem testa alta e ar nobre. Olhinhos brilhantes, buliçosos e voz que prende pelo timbre e pelos causos contados.

Fui visitá-lo na sexta-feira. 15. Arranjei um pretexto rapidinho: devolver um livro do Goethe, um diário do autor sobre sua viagem à Itália. Quando a porta de abriu, meu olhar começou a passear pelas paredes do corredor, uma galeria. Na sala, entre tanta beleza, há três telas do Waldir Sarubi que me deixam encantado. E mais não digo, por egoísmo.

Entre conversas sobre literatura – eu adoro quando me traz livros de poetas chineses e lê alguns trechos ou me deixa passear os olhos pelas páginas incríveis, com poesias traduzidas e no original, que mais parece um bordado desenhado. E a conversa desvia para lembranças e vida alheia. Nossas angústias e sonhos. Solidão e saudade. E um desfile de gente que passou por nós, desde a época em que eu pensava se o teatro a casa que eu queria habitar.

Inevitável que os mortos viessem à tona. Mas a tarde voltou-se para Manoel de Barros, o poeta mato-grossense que morreu no dia 13. O livro do Goethe me fez ver a imagem nascendo da palavra ou a palavra materializando-se em imagens. E eu encerrei a apresentação que eu ia fazem, com uma visão poética que descobri num poema de Manoel de Barros, chamado:

DESPALAVRA

Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da despalavra.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades humanas
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidade de pássaros.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidade de sapo.
Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidade de árvore.
Daqui vem que os poetas podem arborizar os pássaros.
Daqui vem que todos os poetas podem harmonizar as águas.
Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo com suas metáforas
Que os poetas podem pré-coisas, pré-vermes, podem pré-musgos.
Daqui vem que os poetas podem compreender o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens, por eflúvios, por afeto.